Durante décadas, Hollywood cultivou uma imagem persistente: o Brasil como um refúgio tropical para mafiosos em rota de fuga. Em O Poderoso Chefão – Parte II, o Rio de Janeiro vira esconderijo do traidor Fredo. Em Moonraker, James Bond persegue vilões em meio ao carnaval. A mensagem é clara: o Brasil seria exótico, caótico e juridicamente poroso. A selva onde o bandido se reinventa.
Essa representação superficial e sensacionalista moldou o imaginário popular, mas também criou espaço para uma narrativa mais perigosa e insidiosa: a de que o sistema legal brasileiro seria intrinsecamente disfuncional — e, por isso, incapaz de garantir um julgamento justo ou uma punição legítima. Nos últimos anos, essa ideia ganhou novo fôlego, alimentada por fugitivos do colarinho branco, por ex-governadores, empresários, operadores financeiros e até mesmo ex-militares condenados que buscaram abrigo nos Estados Unidos. Refugiam-se em condomínios de Boca Raton ou em sobradinhos de Orlando, acenando com a tese de que são vítimas de perseguição política em uma “democracia deteriorada”.
A ironia é amarga: os mesmos Estados Unidos que abrigam esses fugitivos sob o argumento de que o Brasil se afastou do Estado de Direito, são os que sustentam alianças incondicionais com regimes que, esses sim, rasgam convenções e constituições diariamente.
Washington financia, protege e legitima o regime de exceção de Nayib Bukele em El Salvador, que prende milhares sem mandato judicial, suspende garantias constitucionais e instala mega-presídios como espetáculo. Enquanto isso, congressistas norte-americanos silenciam diante do colapso democrático na Hungria de Viktor Orbán, onde imprensa livre e separação de poderes são peças de museu. Sem falar nas alianças bilionárias com as monarquias do Golfo Pérsico, em especial a Arábia Saudita, onde dissidentes são decapitados e jornalistas esquartejados em consulados estrangeiros.
Nada disso impede um tapete vermelho em Washington. Afinal, o que vale são os contratos, não os códigos. Já o Brasil, país democrático, com Judiciário funcional (ainda que imperfeito), imprensa livre e eleições regulares, é tratado como uma república de bananas. A seletividade é gritante — e funcional. Demonizar o Brasil serve a dois propósitos: justificar a permanência de fugitivos e manter uma narrativa geopolítica onde só os “aliados” decidem o que é democracia.
Essa duplicidade revela não apenas o cinismo da diplomacia seletiva, mas uma estratégia calculada: deslegitimar países do Sul Global que ainda ousam manter mecanismos institucionais de controle, enquanto se normalizam — e até se celebram — regimes que violam abertamente os direitos humanos, desde que alinhados aos interesses estratégicos de Washington. O Brasil, com todos os seus defeitos e contradições, não é um estado falido nem uma ditadura disfarçada. Ao tratar nosso Judiciário como se fosse uma caricatura tropical, enquanto bajula autocratas de carteirinha, os Estados Unidos não apenas erodem a credibilidade de seus próprios discursos sobre democracia, mas fortalecem a ideia de que justiça internacional é, antes de tudo, um jogo de conveniências. Nesse jogo, quem foge da lei nem sempre foge da sombra do poder.
Palmarí H. de Lucena