Há um cansaço antigo que ronda o eleitor paraibano — uma mistura de descrença e tédio diante de um cenário político que parece sempre mudar de nomes para continuar igual. O desgaste é visível: investigações por corrupção, denúncias de vínculos com o crime organizado e a sucessão de promessas recicladas formaram um caldo de desconfiança generalizada. O voto, outrora esperança, tornou-se um gesto de resignação.
No fundo, o eleitor já não distingue o discurso do ensaio. Os sobrenomes se repetem, como se a política fosse um negócio de família e o poder, um patrimônio hereditário. O nepotismo eleitoral — disfarçado sob o verniz de tradição — continua a ditar o compasso das urnas. Pais, filhos, sobrinhos e afilhados se revezam entre mandatos e secretarias, trocando cadeiras, partidos e convicções com a mesma naturalidade com que se troca de terno. O resultado é um sistema viciado em autorreprodução, que fecha as portas ao mérito e eterniza a mediocridade.
Essa mediocridade encontra eco na representação federal da Paraíba, onde a maioria dos parlamentares parece mais empenhada em garantir verbas para bases eleitorais do que em debater os grandes temas nacionais. Falta visão, densidade e coragem. O Congresso, que deveria ser palco de ideias, tornou-se uma assembleia de interesses particulares. Em vez de legislar com independência, parte da bancada atua como extensão de gabinetes estaduais — submissa, silenciosa e pouco criativa.
A sucessão de denúncias por corrupção e o reaparecimento de figuras envolvidas em práticas antidemocráticas ampliam esse cenário de desgaste. Há uma preocupante normalização do desvio de conduta, sustentada pela ausência de filtros morais e pela complacência das instituições. Transgressores reincidentes voltam à cena política amparados por narrativas de auto perdão e pela conivência de aliados. Assim, a corrupção deixa de ser exceção e passa a integrar a rotina eleitoral como uma anomalia tolerada.
O nepotismo eleitoral, sob o disfarce da tradição, perpetua o poder nas mãos de poucas famílias e impede a renovação de lideranças. A hereditariedade política asfixia o debate e transforma o Estado em herança doméstica. O mesmo ciclo se repete nas prefeituras, câmaras e secretarias, consolidando uma aristocracia regional disfarçada de democracia. O resultado é um sistema fechado, imune ao mérito e resistente à mudança.
A situação se agrava quando parte do Legislativo atua contra o espírito republicano, apoiando pautas que favorecem a autopreservação política — inclusive projetos de anistia a militares e agentes públicos envolvidos em ataques às instituições democráticas. Essa desconexão entre o voto parlamentar e a vontade popular evidencia um distanciamento ético que contamina a política nacional e ecoa na Paraíba.
Nesse ambiente rarefeito, nomes como João Azevêdo, Cícero Lucena, Pedro Cunha Lima, Lucas Ribeiro, Efraim Filho e Hugo Motta ensaiam movimentos em direção a 2026. Uns evocam a continuidade, outros a mudança; todos tentam se distanciar das sombras que pairam sobre o sistema. Mas o eleitor, que já viu esse filme antes, observa com prudência. A sucessão estadual não é apenas uma disputa de poder — é um teste moral e, mais que isso, um exame de integridade.
O que a Paraíba precisa não é de herdeiros, mas de líderes. Não é de sobrenomes conhecidos, mas de mentes capazes. O Estado exige lideranças comprometidas com o interesse coletivo, capazes de reconstruir pontes entre o poder e a sociedade. A ética, esquecida nos gabinetes e nas campanhas, deve voltar a ser critério de escolha. Porque nenhuma propaganda sobrevive ao desgaste de um povo que, ainda que cansado, aprendeu a não confundir carisma com caráter.
Por Palmarí H. de Lucena