Entre Byron e Eça: Memórias de uma Estadia no Lawrence’s Hotel, em Sintra

Entre Byron e Eça: Memórias de uma Estadia no Lawrence’s Hotel, em Sintra

Chegar a Sintra já parecia entrar lentamente noutra época, mas foi ao atravessar a porta do Lawrence’s Hotel que essa sensação se tornou inteira. Havia naquele lugar um silêncio elegante, como se as paredes guardassem ainda as conversas de viajantes antigos, poetas distraídos e personagens saídas de romances. Saber que ali se hospedara Lord Byron e que Sintra surgia celebrada nos seus versos dava à estadia um encanto ainda mais literário.

Foi impossível não lembrar Childe Harold’s Pilgrimage, o poema em que Byron descreve Sintra como um “glorioso Éden”, uma paisagem quase irreal de montanhas, brumas e jardins luxuriantes. A serra envolta em névoa, os palácios surgindo entre o verde e a luz variável do fim da tarde pareciam confirmar exatamente aquilo que o poeta inglês sentira no século XIX: Sintra não era apenas um lugar, mas uma visão romântica, um cenário feito para a contemplação e para a melancolia.

Também a lembrança do Ramalhete, a célebre casa da família Maia em Os Maias, parecia acompanhar-nos. Embora o Ramalhete esteja em Lisboa, havia em Sintra e no Lawrence’s Hotel a mesma sensação de memória suspensa, de beleza ligada ao tempo e ao declínio elegante. As paredes antigas, os corredores silenciosos e a luz suave do fim da tarde evocavam esse universo queirosiano, onde os espaços guardam mais do que objetos: guardam destinos.

O hotel recebia-nos com a sobriedade das casas antigas: madeira escura, tapetes espessos, livros discretamente pousados, janelas abertas para a névoa suave de Sintra. Tudo parecia convidar à demora. Não era um lugar de pressa, mas de contemplação. Da janela, via-se a serra coberta de verde e o céu mutável, tão próprio daquela vila onde o tempo parece andar mais devagar.

A cama de dossel do quarto merecia também um olhar demorado. Mais do que um simples móvel, parecia uma testemunha silenciosa da passagem do tempo. Imaginávamos quantos viajantes ilustres ali teriam repousado, quantos pensamentos, sonhos e inquietações teriam atravessado aquele espaço ao longo dos séculos. Talvez Lord Byron ali tenha encontrado descanso e inspiração para os seus versos; talvez outros hóspedes, anónimos ou célebres, tenham deixado naquele quarto pequenas histórias invisíveis. Havia naquela cama antiga uma dignidade serena, como se guardasse ainda a memória de todos os que por ali passaram.

À noite, o jantar teve algo de ritual. Imaginávamos facilmente Carlos da Maia e João da Ega atravessando aquele mesmo salão, entre conversas longas e observações irónicas, como na célebre passagem de Os Maias em que o Lawrence’s Hotel surge como cenário. Havia uma espécie de prazer em sentir que a literatura não estava apenas nos livros, mas também ali, na mesa posta, no ranger discreto do soalho, no rumor distante da chuva sobre as pedras.

Pela manhã, sair para caminhar por Sintra era como continuar a leitura de um romance já começado. O Palácio da Vila, as ruas estreitas, o perfume húmido dos jardins e a presença constante da serra faziam do passeio uma extensão natural da experiência do hotel. Voltávamos sempre ao Lawrence’s com a impressão de regressar não apenas a um quarto, mas a uma narrativa.

Ficar ali foi mais do que uma hospedagem; foi uma forma de habitar, por alguns dias, um imaginário antigo e belo. Saímos com a sensação rara de ter vivido um lugar que não se limita à geografia, mas pertence também à memória e à literatura — como se Sintra, e sobretudo o Lawrence’s Hotel, continuassem a existir um pouco dentro de nós, mesmo depois da partida.

Por Palmarí H. de Lucena