A crise das drogas é o espelho mais cruel das contradições de sociedades que confundem liberdade com o direito de portar armas e que preferem a retórica da guerra ao investimento em saúde. Nos Estados Unidos, a Segunda Emenda foi transformada em dogma, e governos, como o de Donald Trump, escolheram reduzir verbas de prevenção e tratamento, enfraquecendo a rede pública justamente quando a epidemia de opioides devastava comunidades inteiras.
Em vez de ampliar clínicas, investir em políticas de reinserção e salvar vidas, reforçou-se a fantasia de que seria possível “eliminar os cartéis” pela força. A reclassificação desses grupos como organizações terroristas abriu caminho para ameaças de intervenção militar em países estrangeiros, como o México. A história, contudo, já mostrou os limites dessa aposta: das incursões no Caribe às campanhas na América Latina, a militarização do combate ao tráfico não o erradicou — apenas deslocou rotas, fortaleceu facções e multiplicou a violência.
Enquanto isso, o número de dependentes continua crescendo. Nos bairros pobres das grandes cidades americanas, o fentanil ceifa vidas em silêncio, sem que os cortes em programas de tratamento e prevenção sejam revertidos. O tiro disparado contra opositores políticos é apenas a face mais visível de uma sociedade que naturalizou a arma como argumento, mesmo quando ela volta contra seus próprios defensores.
A crítica de fora é contundente. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, não apenas rejeitou a presença de tropas americanas em solo mexicano, afirmando que a soberania “não se negocia”, como também devolveu a acusação: se as drogas circulam nas ruas dos Estados Unidos, é porque há consumo interno massivo e redes de distribuição domésticas que Washington insiste em ignorar. Em vez de exportar tanques e fuzis para além de suas fronteiras, os EUA deveriam olhar para dentro e enfrentar o vício que corrói sua própria sociedade.
O Brasil, por sua vez, também vive suas próprias Cracolândias. Em São Paulo, o fluxo incessante de usuários de crack é o retrato da falência de uma política que insiste em higienizar espaços públicos em vez de enfrentar as causas do problema. As operações de choque apenas deslocam a miséria: um dia em frente à Estação da Luz, no outro em bairros vizinhos. O que não se desloca é a dor — gente que continua sem moradia, sem trabalho, sem atendimento digno.
É legítimo que o Estado combata o contrabando e as organizações criminosas que controlam as fronteiras, como ocorre em operações de repressão no Centro-Oeste e na Amazônia. Mas é preciso frisar: gastos militares não podem substituir o investimento em saúde, em CAPS-AD, em políticas de redução de danos e em programas sociais voltados às populações vulneráveis. Sem isso, continuaremos enxugando gelo, transformando a dependência química em caso de polícia e a pobreza em espetáculo de repressão.
A lição é inequívoca: não se combate o narcotráfico apenas com fuzis, nem se enfrenta a dependência química com despejos e cortes na saúde. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a obsessão pela guerra às drogas ignora as raízes sociais do problema e amplia a espiral da violência. O desafio verdadeiro é abandonar a ilusão da força e construir uma política que cuide das pessoas antes que elas se tornem estatísticas em mapas de miséria e morte.
Por Palmarí H. de Lucena