As observações de Frei Betto no programa Provoca extrapolam o comentário circunstancial sobre a política brasileira. Ao afirmar que a esquerda “não encontrou seu caminho” e ao lamentar o abandono do trabalho de base, o teólogo oferece um diagnóstico que dialoga com uma transformação mais ampla da política contemporânea: a crescente dificuldade das organizações progressistas em manter vínculos orgânicos com os segmentos sociais que historicamente constituíram sua principal base de apoio.
A crítica merece atenção não apenas por partir de uma das vozes mais respeitadas da Teologia da Libertação, mas porque se insere em um contexto de reconfiguração política observado em diversas democracias. Nas últimas décadas, a ascensão de forças conservadoras e nacionalistas em diferentes países revelou mudanças profundas nas formas de mobilização, representação e comunicação política.
No Brasil, o diagnóstico de Frei Betto concentra-se em dois aspectos. O primeiro é o enfraquecimento do trabalho de base. Durante as décadas de 1970 e 1980, movimentos populares, sindicatos, pastorais e organizações comunitárias desempenharam um papel decisivo na formação política e na articulação das demandas sociais. Eram espaços permanentes de escuta, organização e construção de lideranças. A redução dessa presença territorial produziu um distanciamento que, segundo o religioso, ainda não foi plenamente enfrentado.
O segundo aspecto diz respeito à comunicação. A disputa política deslocou-se, em grande medida, para o ambiente digital, onde velocidade, linguagem direta e capacidade de mobilização tornaram-se ativos estratégicos. Nesse cenário, a direita demonstrou maior habilidade para transformar redes sociais em instrumentos de influência política. A esquerda, por sua vez, frequentemente aparece em posição reativa, respondendo a agendas estabelecidas por seus adversários em vez de definir os termos do debate público.
Seria reducionista atribuir o avanço da direita exclusivamente a essas mudanças. O fenômeno resulta da convergência de diversos fatores: estagnação econômica, descrédito institucional, insegurança, transformações culturais, fragmentação das identidades políticas e mudanças profundas no ecossistema da informação. Ainda assim, o diagnóstico apresentado por Frei Betto ilumina uma dimensão frequentemente subestimada: a política perde capacidade de representação quando se afasta dos espaços onde a vida cotidiana acontece.
Essa constatação ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em diferentes países da América Latina, partidos progressistas enfrentam o desafio de renovar lideranças, reconstruir vínculos sociais e adaptar sua comunicação a uma esfera pública profundamente marcada pelos algoritmos e pela circulação acelerada de informações. A disputa deixou de ocorrer apenas nas ruas, nos sindicatos e nas associações comunitárias; ela também acontece, de forma intensa, nas telas dos celulares.
O debate suscitado por Frei Betto, portanto, não deve ser interpretado como uma condenação definitiva da esquerda, mas como um convite à reflexão sobre sua capacidade de adaptação. Organizações políticas, independentemente de sua orientação ideológica, preservam relevância quando conseguem combinar memória histórica com renovação institucional, identidade programática com abertura às transformações da sociedade.
No fim, talvez a questão central não seja quem ocupa hoje o espaço político, mas como esse espaço é construído. Democracias se fortalecem quando seus atores conseguem manter diálogo contínuo com a sociedade, compreender as mudanças culturais e oferecer respostas convincentes aos desafios do presente. A advertência de Frei Betto aponta justamente para esse desafio: nenhuma tradição política permanece influente apenas pelo legado que construiu. Sua vitalidade depende, sobretudo, da capacidade de voltar a ouvir, compreender e representar a sociedade em constante transformação.
Palmarí H. de Lucena