João Pessoa vive um momento crítico em relação ao seu litoral e ao modelo de desenvolvimento urbano que tem orientado a expansão da cidade. A capital, historicamente reconhecida pela beleza contínua de sua orla, pela presença rara de Mata Atlântica em área urbana e pela harmonia entre paisagem e ocupação, enfrenta hoje as consequências de decisões que não dialogam com a fragilidade do território. O Altiplano e o Cabo Branco, em particular, tornaram-se símbolos de um avanço acelerado que já não pode ser ignorado.
A construção do arranha-céu de 52 andares em 2016 foi apenas o marco inaugural de uma tendência que rapidamente se intensificou. A região conhecida como “Dubai do Altiplano Nobre” consolidou, em poucos anos, uma verticalização agressiva, com dezenas de torres projetadas ou já erguidas sobre um solo reconhecidamente instável, composto por camadas de argila altamente suscetíveis à erosão. Esse adensamento massivo, ao impermeabilizar amplos trechos do terreno, altera a drenagem natural, eleva a pressão sobre o solo e agrava diretamente o processo de deslizamento da falésia do Cabo Branco. O que antes era alerta técnico tornou-se risco concreto — visível, mensurável e progressivo.
Esse cenário não surgiu de forma espontânea. Em 2005, um decreto que alterou o zoneamento do Altiplano, convertendo uma área antes classificada como Zona Especial de Preservação em Zona Turística, abriu a porta para empreendimentos de grande impacto. A decisão, tomada sem debate legislativo e sem a devida participação da sociedade, permitiu que obras de elevada complexidade ambiental fossem aprovadas com estudos insuficientes para a sensibilidade da região. A impermeabilização crescente, a supressão de vegetação nativa e o adensamento acelerado explicam grande parte das erosões e voçorocas que hoje ameaçam a estabilidade da barreira.
Quando os efeitos passaram a atingir o cotidiano — com trechos interditados, rupturas no solo e relatos de avanço da erosão — a sociedade civil reagiu. Moradores organizaram movimentos de proteção, como os Amigos da Barreira, promoveram atos simbólicos e buscaram o Ministério Público. Não se trata de resistência ao progresso, mas do reconhecimento de que a economia de João Pessoa — especialmente o turismo, a cultura e a qualidade de vida urbana — depende da preservação daquilo que a torna singular. O litoral não é um obstáculo ao desenvolvimento: é o principal ativo da cidade.
O problema do Cabo Branco precisa ser entendido dentro de um padrão mais amplo. Outras áreas verdes valiosas, como o Parque Lauro Pires Xavier e o Parque Ecológico Jaguaribe, enfrentam pressões similares: ocupações irregulares, supressão de mata ciliar, despejo de esgoto e falta de integração entre urbanismo, drenagem e conservação. A repetição desse padrão — em bairros distintos e por razões diversas — revela uma fragilidade estrutural na gestão do território que requer atenção imediata.
É exatamente por isso que se faz necessária uma ação coordenada entre Executivo e Legislativo. A cidade precisa de um novo pacto urbano-ambiental, capaz de conciliar desenvolvimento econômico com responsabilidade ambiental. Esse pacto deve incluir revisão rigorosa das normas de uso e ocupação do solo, exigência de estudos de impacto ambiental completos e transparentes, controle efetivo do adensamento em áreas sensíveis, recuperação das áreas já degradadas e políticas claras para o turismo sustentável, que dependem diretamente da integridade do litoral.
João Pessoa não precisa escolher entre crescer e preservar. Precisa redesenhar seu modelo de desenvolvimento para que uma vertente não anule a outra. O “Dubai do Altiplano Nobre” impressiona pela estética, mas não pode ser construído à custa da estabilidade da falésia. O progresso da capital não deve se sustentar em um solo que literalmente desmorona. A cidade precisa de planejamento que leve em conta o longo prazo, não apenas ciclos imobiliários imediatos.
Ainda há tempo para corrigir o rumo, mas esse tempo está diminuindo. Cada estação de chuvas intensifica a erosão; cada novo empreendimento sem o devido rigor técnico amplia a vulnerabilidade do Cabo Branco. Assim, esta mensagem não é um alerta pessimista, mas um apelo responsável: que prefeito e vereadores assumam o protagonismo de conduzir, com coragem e ciência, as decisões que garantirão um futuro sustentável para João Pessoa.
Proteger a falésia, os parques urbanos e as áreas verdes não é uma opção estética: é a condição de sobrevivência da cidade. O futuro do Cabo Branco — e, por extensão, o futuro da própria João Pessoa — está em jogo. E governar, neste momento, significa agir antes que a cidade ultrapasse um ponto de não retorno.
Por Palmarí H. de Lucena