No início do mês, uma mulher espalha sobre a mesa as contas que chegaram: aluguel, luz, supermercado, material escolar, o botijão de gás. Enquanto o filho se arruma para a escola, ela faz as contas no celular, adia uma despesa e olha o saldo mais uma vez. Se sobrar algum dinheiro, há escolhas à espera: pagar uma dívida, guardar um pouco, comprar o que falta em casa ou fazer aquela pequena reforma que vem sendo adiada. É nessa mesa que palavras como trabalho, segurança e prosperidade deixam de ser conceitos abstratos e ganham significado concreto.
Prosperidade pode significar aumentar a renda, conseguir um emprego melhor, abrir um negócio ou simplesmente chegar ao fim do mês com alguma folga. Em segmentos do neopentecostalismo, essa ideia se associa à fé, ao trabalho e à expectativa de transformação. Entretanto, seu significado aparece quando a promessa religiosa encontra a experiência concreta: uma dívida paga, uma compra antes adiada, uma reforma na casa, melhores condições para os filhos ou a possibilidade de enfrentar uma perda de renda.
Nesse sentido, prosperidade não deve ser entendida apenas como acumulação de bens. Ela também pode significar ampliação da capacidade de escolha. Ter algum dinheiro guardado permite enfrentar um período de desemprego ou uma emergência sem recorrer imediatamente a empréstimos. Ter acesso a educação, saúde, transporte e crédito em condições razoáveis amplia as possibilidades de construir uma trajetória diferente. A dimensão econômica da prosperidade, portanto, está ligada à autonomia.
O problema aparece quando essa expectativa encontra os limites da vida concreta. Trabalhar mais não garante o mesmo resultado para todos. Uma pessoa pode ter experiência, disposição e disciplina e encontrar poucas vagas; outra pode ter crédito, contatos e conhecimento para abrir um negócio, enquanto alguém em situação semelhante não dispõe dos recursos necessários para começar. Escolaridade, saúde, transporte, localização, acesso à tecnologia, condições familiares e características do mercado interferem nesse percurso. Reconhecer essas diferenças não diminui o valor do esforço; apenas impede que todo resultado seja atribuído exclusivamente a ele.
Há ainda uma dimensão importante: a valorização de tornar-se empresário, trabalhar por conta própria ou construir uma atividade autônoma. Para muitas pessoas, isso significa não depender de um patrão, controlar o próprio horário e acreditar que o resultado do próprio esforço pode se transformar diretamente em renda.
Essa imagem do empresário de si mesmo ganhou força em um contexto no qual o emprego tradicional deixou de ser, para muitos, a única referência de segurança econômica. Vender produtos, prestar serviços, trabalhar como motorista, entregador, profissional autônomo, pequeno comerciante ou manter um negócio familiar pode ser apresentado como alternativa ao emprego formal. A linguagem da autonomia transforma o trabalhador em alguém que administra a própria atividade, assume riscos e procura ampliar seus ganhos.
Há ainda um aspecto particularmente relevante nessa relação entre empreendedorismo e consumo: a ostentação como demonstração pública de sucesso. Smartphones de alto valor, veículos novos, viagens, roupas e outros bens podem funcionar como sinais de que o negócio deu certo. Para o pequeno empresário ou trabalhador autônomo, esses sinais também podem transmitir confiança, prestígio e a imagem de alguém bem-sucedido.
O problema aparece quando a aparência de prosperidade passa a pressionar as decisões financeiras. A necessidade de demonstrar sucesso pode estimular gastos que não correspondem à capacidade real da empresa ou da família. O empresário pode sentir que precisa manter determinado padrão de consumo diante de clientes, fornecedores, amigos e redes sociais. Nesse contexto, aquilo que deveria ser resultado da prosperidade pode transformar-se em condição para aparentá-la.
Essa dinâmica se torna especialmente delicada quando despesas pessoais e empresariais se misturam. O mesmo cartão, conta bancária ou crédito pode ser utilizado para pagar despesas da casa, financiar um veículo, custear viagens e, ao mesmo tempo, manter o funcionamento da empresa. Sem uma separação clara entre o dinheiro do negócio e o dinheiro da família, torna-se difícil saber se a atividade realmente gera lucro ou apenas movimenta um volume elevado de recursos.
A confusão pode criar uma falsa percepção de prosperidade. O faturamento parece elevado, mas parte dos recursos já está comprometida com despesas pessoais, parcelas, manutenção e consumo. Ao mesmo tempo, dinheiro que deveria permanecer na empresa pode ser utilizado para sustentar o padrão de vida do proprietário. Isso não significa que toda ostentação produza endividamento, mas, quando se combina com crédito excessivo e falta de organização financeira, pode aumentar a vulnerabilidade do negócio e da família.
Por isso, a prosperidade empresarial não deveria ser medida apenas pelo faturamento, pelo carro, pelo celular ou pelas viagens. Ela também depende da capacidade de gerar renda de maneira sustentável, manter reservas, separar as finanças pessoais das empresariais e atravessar períodos de menor movimento sem comprometer a sobrevivência do negócio. A autonomia prometida pelo empreendedorismo depende não apenas de ganhar dinheiro, mas de conseguir administrar o dinheiro conquistado.
Há, porém, uma contradição nessa promessa. Quanto maior a responsabilidade individual pelo resultado, maior pode ser a transferência dos riscos para o próprio trabalhador. Se o movimento diminui, o cliente desaparece, o veículo quebra, o equipamento precisa de manutenção ou a pessoa adoece, a perda de renda pode ser imediata. No emprego formal, parte desses riscos é compartilhada por mecanismos institucionais; no trabalho autônomo, uma parcela maior recai sobre o indivíduo.
Por isso, a questão não é rejeitar o empreendedorismo, mas perguntar que tipo de empreendedorismo está sendo produzido e em quais condições. Há diferença entre quem abre uma empresa porque identificou uma oportunidade e possui recursos para investir e quem se torna autônomo porque perdeu o emprego e não encontrou outra alternativa. Nos dois casos existe iniciativa, mas as condições de escolha são diferentes.
A promessa de prosperidade assume, então, outra forma: não apenas trabalhar para ganhar, mas trabalhar para construir algo próprio. Essa promessa associa renda, dignidade, independência e reconhecimento. Entretanto, para que a autonomia seja efetiva, não basta transferir ao indivíduo a responsabilidade pelo sucesso. É preciso considerar acesso a crédito, qualificação, infraestrutura, mercados, previdência, saúde e mecanismos capazes de reduzir os riscos que podem destruir rapidamente uma pequena atividade econômica.
O Estado aparece justamente quando a conta não fecha. Uma transferência de renda pode ajudar a comprar comida, pagar uma conta ou atravessar um período sem trabalho. O Bolsa Família, para quem o recebe, não é apenas uma política discutida em Brasília: o dinheiro pode estar na feira, no material escolar, no botijão de gás ou na conta que deixou de atrasar.
A proteção social pode funcionar como um piso de segurança. Quando uma família possui algum mecanismo que impede uma queda imediata para uma situação ainda mais grave, suas decisões podem mudar. O recurso pode permitir que alguém procure trabalho por mais tempo, mantenha uma criança na escola ou atravesse uma emergência sem vender um bem essencial. Assim, a política social não necessariamente elimina a iniciativa individual; em determinadas circunstâncias, pode criar condições mínimas para que ela seja exercida.
No período eleitoral, essa tensão ganha dimensão política. Há quem dê maior valor à iniciativa, ao mérito e à renda obtida pelo próprio trabalho; há quem considere indispensável ampliar a proteção pública em momentos de dificuldade. Muitas vezes, as duas preocupações convivem na mesma casa. Uma pessoa pode defender que o Estado ajude quem está vulnerável e, ao mesmo tempo, desejar que seus filhos tenham oportunidades para construir uma vida independente dessa ajuda.
No fim, prosperar talvez seja menos uma questão de chegar a algum lugar definido do que de poder escolher o próximo passo. Para uma família, pode significar aumentar a renda; para outra, quitar uma dívida, manter os filhos na escola ou atravessar um mês difícil sem recorrer a ninguém. Para outra ainda, pode significar abrir um pequeno negócio, mudar de emprego, estudar ou ter a segurança de que uma emergência não levará imediatamente à perda de tudo.
É nessa diferença entre o que se deseja e o que está ao alcance que a palavra prosperidade deixa de ser apenas promessa e passa a fazer parte da vida. Prosperar pode ser ganhar mais, consumir mais ou conquistar bens, mas pode ser também ter segurança, autonomia e capacidade de escolher. Uma sociedade verdadeiramente próspera talvez seja aquela em que mais pessoas tenham não apenas a possibilidade de sonhar com uma vida melhor, mas condições reais para transformar esse desejo em escolhas concretas.
Palmarí H. de Lucena