Há viagens que não terminam quando o carro para. Continuam dentro da gente, misturadas ao cheiro da terra, ao rumor das cidades e às lembranças que o tempo guarda sem pedir licença. No caminho entre o litoral e Monteiro, no coração do Cariri paraibano, atravesso também a geografia da memória: cada curva parece devolver algo que eu julgava distante.
Aos poucos, o mar desaparece pelo retrovisor. Ficam para trás a maresia e os coqueiros; adiante, a vegetação baixa, a terra avermelhada e os mandacarus se erguem contra o céu. O calor chega à pele, a estrada vibra sob as rodas e a poeira de um caminhão deixa no ar o cheiro seco do chão aquecido. A Paraíba muda de rosto, mas não de pertencimento.
Então aparece a pequena ponte, como uma frase curta anunciando a chegada. Logo depois, as torres da igreja se recortam no azul, e as casas coloridas parecem guardar pedaços de sol nas fachadas. As motos cruzam as ruas; os pedestres seguem seu passo, atentos às brechas do movimento. Há buzinas, motores, vozes nas calçadas e o calor preso à roupa. Monteiro não se oferece como cartão-postal: revela-se no movimento miúdo de quem vive ali.
Mas a cidade também se escuta. Seu nome evoca Pinto de Monteiro, cantador de raciocínio ligeiro e verso afiado, capaz de transformar um desafio em surpresa e uma resposta em riso. Imagino a viola vibrando, a roda de ouvintes em torno dos cantadores e o breve silêncio que antecede o improviso. Na cantoria, a palavra precisa chegar no instante certo.
Jansen Filho acrescenta outra presença à memória poética de Monteiro. E, quando penso na sanfona de Flávio José, a música atravessa a estrada comigo. A imagem da burrinha da felicidade, lembrada em “A Natureza das Coisas”, traz a sabedoria de quem não exige que a vida corra. Talvez a alegria viaje assim: sem alarde, no passo miúdo de quem reconhece o que ainda floresce.
Na pousada, a poesia também tem morada. Os versos dos poetas de Monteiro enfeitam as paredes e fazem companhia a quem chega, como se cada quarto guardasse uma pequena voz do Cariri. A palavra sai dos livros, acompanha o hóspede e transforma a estadia numa visita à memória da cidade.
Pinto de Monteiro, mestre do repente e da palavra ligeira, é lembrado por uma definição que parece guardar o segredo da criação poética: “Poeta é aquele que tira de onde não tem e bota onde não cabe.” Nessa frase breve, cabe um mundo. O poeta encontra matéria onde parece haver vazio e faz caber sentimento, beleza e pensamento onde o espaço parecia esgotado. É a arte de transformar pouco em muito, silêncio em canto e vida comum em poesia. Em Monteiro, ela enfeita as paredes da pousada e faz da hospedagem um encontro com a alma do Cariri.
Há, porém, uma lembrança que muda a luz de tudo. Ao chegar a Monteiro, procuro o sorriso de Maria Clara, nossa afilhada. Era esse sorriso que nos mantinha unidos aos amigos que deixamos na cidade; por um instante, a memória a coloca ali, à espera, como se a viagem ainda pudesse terminar no abraço de sempre. Uma queda fatal de cavalo interrompeu sua vida e levou consigo o futuro que sonhávamos para ela, inclusive o desejo de vê-la médica. Ficaram os planos, os abraços adiados e tantas palavras que acreditávamos ter tempo de dizer.
Desde então, a pequena ponte já não é apenas passagem, nem as torres da igreja apenas um marco no horizonte. A cidade guarda também a presença de quem partiu. Uma moto passa, alguém atravessa a rua, o sol acende uma parede colorida — e a vida continua diante dos olhos, enquanto a saudade abre uma porta por dentro. Não espero que a paisagem devolva Maria Clara; reconheço que o amor muda a maneira como vemos cada lugar.
As estradas aproximam o litoral e o Cariri, levam trabalhadores, alimentos e sonhos, e tornam possíveis encontros que a distância dificultaria. Para cumprir esse papel, precisam de cuidado, planejamento e responsabilidade pública. Uma ponte segura e uma rodovia bem conservada significam tempo, acesso, trabalho e proteção para quem depende delas.
Quando penso em Monteiro, vejo a ponte pequena, as torres, as fachadas vivas e as ruas atravessadas por motos e passos. Vejo a pousada, com versos nas paredes, recebendo o visitante pela palavra. Ouço ao fundo a viola do cantador e a sanfona que acompanha a viagem. E lembro o sorriso de Maria Clara, que nos mantinha unidos aos amigos que lá deixamos — um sorriso que continua a aproximar pessoas, mesmo depois de sua partida.
Entre a praia e o Cariri, sigo viagem. O mar ficou para trás e o Cariri se abre diante de mim. Algumas distâncias se vencem pelo asfalto; outras aprendemos a carregar com cuidado. Maria Clara já não percorre essas estradas ao nosso lado, mas continua chegando conosco — porque há amores que não impedem a partida, apenas mudam para sempre o sentido de chegar.
Palmarí H. de Lucena