Entre a influência e a ingerência

Entre a influência e a ingerência

O silêncio de Donald Trump sobre a eleição brasileira pode ter sido uma escolha política calculada, mas não é, por si só, prova de interferência eleitoral. Segundo um assessor da Casa Branca ouvido pelo Washington Post, a avaliação do governo americano teria sido a de que manifestações mais explícitas em favor de Flávio Bolsonaro poderiam produzir o efeito contrário ao desejado e favorecer Lula. O que me parece mais revelador nesse episódio não é apenas o silêncio de Trump, mas o cálculo que pode estar por trás dele: em política internacional, até a ausência de uma declaração pode ser uma forma de ação.

Há razões concretas para os Estados Unidos acompanharem de perto uma eleição como a brasileira. O Brasil tem peso econômico, dimensão territorial, importância regional e interesses estratégicos que despertam a atenção de Washington. Brasília, por sua vez, acompanha as decisões americanas porque elas afetam comércio, investimentos, segurança e tecnologia. Países defendem interesses, procuram aliados, tentam persuadir e, quando podem, ampliar sua influência. Faz parte do jogo.

A palavra influência, contudo, precisa ser usada com precisão. Influenciar é procurar convencer, aproximar, persuadir ou criar condições favoráveis a determinada posição. Interferir é tentar alterar, de maneira indevida, as condições em que uma sociedade toma suas próprias decisões. Para dizer que essa fronteira foi ultrapassada, não bastam desconfianças: são necessários fatos, meios e alguma demonstração de tentativa concreta de alterar o processo.

É nessa medida que o episódio envolvendo Trump deve ser lido. Se a Casa Branca realmente concluiu que uma manifestação ostensiva poderia beneficiar o adversário, a opção pelo silêncio teria sido uma decisão de estratégia política: falar menos para produzir um efeito melhor. Há cálculo, interesse e talvez preferência. O fato isolado não permite, contudo, qualificá-lo como interferência eleitoral.

Isso não significa minimizar o alcance das ferramentas utilizadas por Washington. O caso das tarifas é importante porque introduz um elemento de poder material. Em julho de 2025, Trump determinou uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, levando a carga total a 50% para os itens abrangidos. No próprio ato presidencial, a Casa Branca associou a decisão, entre outras alegações, ao tratamento dado pelo governo brasileiro a Jair Bolsonaro e a questões de liberdade de expressão, direitos humanos e política externa americana.

A medida transformou uma disputa política e diplomática em custo econômico concreto. Uma tarifa, nesse contexto, pode funcionar também como instrumento de pressão. Isso não significa que toda tarifa tenha finalidade política ou constitua interferência, mas mostra que uma potência pode exercer poder por meios que produzem custos reais e alteram o cálculo de governos, empresas e setores econômicos.

A mesma cautela vale para os recursos americanos destinados a organizações brasileiras. Dinheiro estrangeiro em assuntos politicamente sensíveis merece transparência. É legítimo perguntar quem financia quem, com que finalidade e sob quais condições. Outra coisa é transformar a pergunta em conclusão. A existência de financiamento, por si só, não demonstra uma operação política. Entre receber recursos e interferir numa eleição existe uma distância que somente a evidência pode preencher.

Nesse intervalo entre a suspeita e a conclusão está a investigação da Polícia Federal. Seu valor estará em esclarecer fatos, identificar responsabilidades, se houver, e separar aquilo que pode ser demonstrado daquilo que permanece no campo da hipótese. Em assuntos politicamente inflamáveis, esperar pelos fatos não é omissão; é método.

Acusações de interferência estrangeira chegam ao debate público carregadas de significado. Oferecem uma narrativa pronta: de um lado, a soberania nacional; de outro, uma potência tentando impor sua vontade. A realidade é menos confortável. Países influenciam uns aos outros por meio da economia, da diplomacia, da cultura, das empresas e dos governos. Nem toda influência é ingerência. Nem toda pressão econômica é interferência eleitoral. Mas seria igualmente imprudente tratar o poder econômico como irrelevante quando ele é mobilizado em disputas que também têm dimensão política.

É nesse ponto que a política externa de Trump merece uma leitura mais ampla. A estratégia de segurança nacional divulgada pelo governo americano em 2025 colocou o Hemisfério Ocidental entre as prioridades centrais dos Estados Unidos e afirmou que Washington pretende “reassert and enforce” a Doutrina Monroe. O documento chama essa orientação de Trump Corollary to the Monroe Doctrine e a relaciona à segurança americana, ao controle de ativos estratégicos e à contenção de capacidades de potências externas na região. A formulação explicita uma visão de prioridade estratégica americana para o hemisfério, sem que seja necessário atribuir a ela consequências que o documento não estabelece.

A Doutrina Monroe nasceu em 1823, em circunstâncias muito diferentes das atuais. Seu princípio original estava ligado à oposição à recolonização europeia das Américas. Ao longo do tempo, porém, ganhou interpretações mais amplas e passou a ser associada também à expansão da influência e da intervenção dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. A referência histórica reaparece agora em uma estratégia que combina segurança, comércio, energia, migração, cadeias de suprimentos e competição com potências externas. O significado exato dessa orientação dependerá de sua execução, mas Washington declara com clareza que considera o Hemisfério Ocidental uma área de interesse estratégico prioritário.

Essa mudança de ênfase importa. Uma coisa é lidar com um governo americano que manifesta preferências ou defende interesses comerciais. Outra é relacionar-se com uma potência que declara uma prioridade estratégica para a região e dispõe de instrumentos econômicos, diplomáticos e, em determinadas circunstâncias, militares para fazer valer suas posições. A diferença não precisa ser dramatizada, mas tampouco ignorada.

Muito além da disputa eleitoral, a relação entre Brasília e Washington continuará marcada por interesses permanentes. Os dois países podem cooperar num assunto e divergir profundamente no seguinte. As tarifas de 2025 mostraram que a afinidade política entre governos não impede o uso de instrumentos econômicos para pressionar o outro lado. Proximidade política não significa convergência permanente — e muito menos elimina a necessidade de defender interesses próprios.

Um presidente pode abrir portas, criar canais e facilitar conversas. Nenhum relacionamento internacional sério pode depender apenas da proximidade entre dois líderes. Trump é uma figura central na política americana, mas não é os Estados Unidos. Washington é feito de Congresso, Judiciário, agências, governos estaduais, empresas, grupos de interesse e uma sociedade plural, com interesses muitas vezes contraditórios.

Uma eventual mudança na composição do Congresso americano tornaria essa realidade ainda mais visível. Um governo brasileiro próximo de Trump poderia ter interlocução privilegiada com a Casa Branca e, ao mesmo tempo, precisar negociar com parlamentares que não compartilhassem suas prioridades. É a própria natureza de uma relação entre Estados soberanos. Quem conhece Washington apenas pela porta da Casa Branca conhece apenas uma parte dos Estados Unidos.

Na equação brasileira, a China acrescenta outra camada. O país não precisa escolher uma potência para provar lealdade à outra. A China tem enorme peso no comércio exterior brasileiro; os Estados Unidos são um parceiro estratégico de primeira importância. Há interesses que convergem e outros que divergem. A diplomacia brasileira precisa conviver com essa realidade sem transformar relações comerciais em alinhamentos políticos automáticos.

Talvez seja essa a parte mais incômoda da discussão. Um país soberano não é aquele que vive isolado, impermeável às pressões externas ou indiferente ao peso das grandes potências. É aquele que consegue conviver com essas pressões sem confundir conveniência com princípio, proximidade com lealdade ou interesse estrangeiro com interesse nacional. A verdadeira autonomia não está em dizer sempre não a Washington, assim como não está em dizer sempre sim. Está na liberdade de decidir.

Essa liberdade exige mais do que discursos sobre soberania. Exige instituições capazes de decidir, diplomacia capaz de negociar e governos capazes de distinguir uma relação pessoal de uma política de Estado. Poder não se manifesta apenas em discursos: aparece em tarifas, sanções, acesso a mercados, investimentos, cooperação militar, controle de tecnologias e capacidade de estabelecer custos para quem não acompanha determinada agenda.

É nesse ponto que a referência à Doutrina Monroe ganha seu significado contemporâneo. Se Washington trata o Hemisfério Ocidental como área de prioridade estratégica e dispõe de instrumentos econômicos e diplomáticos para reforçar essa posição, o Brasil terá de lidar com uma realidade mais exigente. Não se trata de escolher entre submissão e confronto. Trata-se de preservar espaço de decisão num ambiente em que as assimetrias de poder são evidentes.

No fim, a questão não é saber se o Brasil deve ouvir Washington. Deve. Tampouco se deve ouvir Pequim, Bruxelas ou qualquer outro centro de poder. Deve ouvir todos. A questão decisiva é outra: quem toma a decisão depois que todos falam?

Soberania não é viver sem a influência dos outros; é ouvir todas as potências sem entregar a nenhuma delas o direito de escolher o caminho do Brasil.

Palmarí H. de Lucena