Entre a fúria e o absurdo: a democracia brasileira em cena

Entre a fúria e o absurdo: a democracia brasileira em cena

Se a democracia brasileira fosse observada a partir do teatro europeu do pós-guerra, ela provavelmente surgiria dividida entre dois palcos distintos — e igualmente inquietantes. Num deles, ecoaria a voz colérica de John Osborne; no outro, o silêncio desconcertante de Eugène Ionesco. Ambos ajudariam a compreender não apenas a crise política do presente, mas o esvaziamento mais profundo do sentido democrático no Brasil.

John Osborne, autor de Look Back in Anger, escreveu a partir da frustração de uma geração que se sentiu traída pelas promessas do progresso. Seu teatro é movido pela raiva moral: a indignação diante de elites satisfeitas, instituições complacentes e discursos que mascaram a ausência de mudança real. O Brasil atual se reconhece nesse espelho. A política tornou-se terreno de ressentimento permanente, onde o grito substitui o argumento e a denúncia dispensa o projeto. Fala-se em nome do povo com facilidade, mas governa-se à distância dele.

A democracia, nesse registro, converte-se em palco de desabafo. Há conflito, mas pouco confronto de ideias; há indignação, mas escassa responsabilidade. Como nos personagens de Osborne, a crítica é feroz, mas raramente se transforma em construção. A raiva organiza a cena, porém não aponta saída. O resultado é uma democracia emocionalmente saturada e politicamente exausta.

Ionesco, por sua vez, observaria o mesmo país com outro espanto. Em obras como Rinoceronte e A Cantora Careca, o dramaturgo revela sociedades em que a linguagem se dissolve, os rituais persistem sem significado e o absurdo se normaliza. Aplicado ao Brasil, esse olhar é igualmente perturbador. As instituições funcionam, os discursos se repetem, as palavras circulam — mas já não produzem entendimento comum. Democracia, Constituição, povo, interesse público: termos recitados com solenidade, mas esvaziados pela repetição automática.

O fenômeno mais inquietante, sob essa lente, é a adesão sem reflexão. Opiniões são adotadas por pertencimento, não por convicção; alianças se formam por conveniência, não por coerência. O ilógico deixa de chocar. A contradição vira método. A política se transforma numa coreografia previsível, onde o gesto importa mais que o sentido.

Entre Osborne e Ionesco, a democracia brasileira revela sua dupla fragilidade. De um lado, grita porque não confia; de outro, repete porque já não acredita. Oscila entre a fúria moral e o vazio semântico. Mantém os ritos, mas perde densidade. Preserva a forma, mas compromete o conteúdo.

O risco maior não é o conflito — ele é próprio da democracia —, mas sua degradação em espetáculo. Quando a indignação não se traduz em propostas e a linguagem não sustenta compromissos, o espaço público se esvazia. A democracia continua em cartaz, mas já não convence.

Talvez o desafio do presente seja justamente escapar desse duplo impasse: recuperar a capacidade de transformar crítica em projeto e palavras em responsabilidade. Sem isso, o país seguirá encenando sua democracia entre o drama ruidoso e o absurdo silencioso — aplaudido por alguns, compreendido por poucos, sustentado por um público cada vez mais distante do palco.

Por Palmarí H. de Lucena