O vento da Revolução dos Cravos, em 1974, soprou também sobre o arquipélago distante onde o sol nasce primeiro na lusofonia. Timor-Leste, pequena ilha de perfumes e vulcões, sentiu pela primeira vez, em quatro séculos e meio, a vertigem da liberdade. Portugal, que ali aportara em 1515 em busca de sândalo branco, retirava-se apressadamente — deixando atrás de si uma população empobrecida e dividida. Um império que se despedia sem sequer arrumar a mala.
No vácuo da partida, ergueram-se vozes dissonantes. A FRETILIN, movida por ideais de independência, sonhava um país soberano. Outras correntes, alimentadas pelo medo do comunismo, defendiam a integração à Indonésia. O sonho degenerou em pesadelo: em 28 de novembro de 1975, a FRETILIN proclamou a independência; nove dias depois, tropas indonésias desembarcaram em Díli, com a complacência dos Estados Unidos e da Austrália.
Iniciava-se um dos capítulos mais sombrios da história contemporânea. Sob o pretexto de combater o comunismo, instaurou-se uma ocupação marcada por massacres, deportações e desaparecimentos. Estima-se que duzentos mil timorenses — quase um quinto da população — tenham morrido entre 1975 e 1999. Cada aldeia guardava o silêncio de um luto coletivo.
As aldeias de recolonização — ironia cruel de uma nova dominação — eram campos de confinamento. O alimento era distribuído conforme a docilidade dos moradores. O arroz, o sal e o querosene tornaram-se instrumentos de controle. Crianças sobreviviam à base de mandioca crua; missionários escondiam sacos de arroz sob as batinas. O ensino do português foi proibido, as missas vigiadas, e as mulheres, submetidas a programas de “integração cultural” que mascaravam práticas de islamização forçada. A identidade timorense — católica, lusófona, mestiça e teimosa — tornou-se um ato de resistência.
Foi nesse contexto que a Conferência Episcopal Timorense, apoiada por representantes da FRETILIN nas Nações Unidas, denunciou o desvio de ajuda humanitária. Alimentos e medicamentos enviados por organizações católicas eram apropriados por militares e usados como recompensa pela submissão.
Fui designado para chefiar uma delegação de inspeção. Em Jacarta, o calor era sufocante e a vigilância constante. Nossas reuniões com diplomatas e oficiais militares eram marcadas por sorrisos tensos e chá amargo. Os generais asseguravam que a fome era culpa dos “terroristas” da FRETILIN. A embaixada americana, cautelosa, reconhecia o drama, mas via na ajuda uma ferramenta de pacificação.
Tratava-se, na verdade, de uma guerra de extermínio. Aldeias arrasadas, marchas forçadas, valas comuns. Pedi autorização para visitar Díli; negaram. No dia seguinte, fomos escoltados ao aeroporto com passagens prontas para Tóquio. Um modo diplomático de dizer: não voltem.
De volta, decidimos restringir a ajuda: os alimentos e medicamentos passariam a ser distribuídos pelas paróquias timorenses. A fé era, então, a única fronteira possível entre a vida e o desespero.
Anos depois, o Papa João Paulo II visitou Díli e denunciou a violência com uma homilia que rompeu o cerco do medo. Jovens marcharam com cartazes de paz e foram reprimidos a tiros. Daquelas cinzas, surgiram os nomes de Carlos Filipe Ximenes Belo e José Ramos-Horta, que em 1996 receberam o Prêmio Nobel da Paz.
A libertação do Timor-Leste foi um parto sangrento. Quando a Indonésia permitiu o referendo de 1999, a ilha era um campo de ruínas. Escolas queimadas, poços contaminados, igrejas profanadas. Milícias pró-Indonésia incendiaram vilas, mataram civis e destruíram registros. Nos hospitais de campanha, crianças famintas gemiam em silêncio. Lembro-me de Lita, nove anos, que perdera uma perna. Perguntei se sentia dor. Ela respondeu: “Não, senhor. Só sinto falta da outra parte de mim.”
Essa frase resume o país mutilado que renascia. As Nações Unidas chegaram tarde, mas chegaram. Construíram escolas e abrigos; e, entre os escombros, reapareceram as bandeiras e as canções proibidas.
Em 27 de setembro de 2002, o Timor-Leste tornou-se o 191º membro das Nações Unidas. Eu estava em Nova York quando sua bandeira subiu. Lembrei de Lita, do crucifixo de madeira e do punhado de arroz nas mãos de uma criança faminta — a fé e a fome, os dois instrumentos da sobrevivência.
A tragédia de Timor-Leste ensinou ao mundo uma lição incômoda: o silêncio das potências pode ser tão letal quanto a pólvora. Mas também revelou a força secreta da dignidade humana — essa chama que, mesmo pisoteada, insiste em florescer entre os escombros.
Jacarta, Indonesia,1983
Por Palmarí H. de Lucena