Cheguei a Nova York no outono de 1970 e me instalei no Hotel Earle, junto à Washington Square, no coração de Greenwich Village. O Earle pertencia àquela categoria de estabelecimentos que os agentes de viagem preferiam ignorar e os escritores adoravam descobrir. Não era exatamente decadente; encontrava-se num estado intermediário, como um velho ator que ainda conservava os trejeitos da fama, embora o figurino estivesse gasto e o público diminuísse a cada temporada. O aluguel era barato, os corredores exalavam uma combinação de desinfetante, tabaco e calefação cansada, e os elevadores subiam rangendo como se protestassem contra a própria gravidade.
Ali aportavam os passageiros de uma arca improvável: artistas sem galeria, poetas sem leitores, músicos sem plateia, veteranos da Guerra do Vietnã sem destino, imigrantes recém-desembarcados e indivíduos cuja principal ocupação parecia consistir em sobreviver mais um dia sem grandes explicações.
Os moradores permanentes passavam horas afundados nos sofás do lobby. Observavam os recém-chegados com a solenidade de juízes venezianos. Bastava uma mala, um casaco ou um par de sapatos para que formulassem um diagnóstico completo da vida do visitante. Eram oráculos do ócio.
Ao me entregar a chave, o recepcionista lançou um olhar teatral para os lados e baixou a voz.
— O senhor ficou com o 302.
Fez uma pausa calculada.
— O quarto de Bob Dylan.
Examinei a chave. Depois examinei o homem.
Ele parecia perfeitamente sóbrio.
— Bob Dylan?
— O próprio.
Percebendo minha incredulidade, inclinou-se ainda mais sobre o balcão.
— Também tivemos outro Dylan.
Nova pausa.
— Dylan Thomas.
Esperei alguma explicação extraordinária.
— Tivemos de despejá-lo.
— O poeta?
— Barulhento demais.
A frase foi pronunciada com a mesma naturalidade de quem comenta uma infiltração no telhado.
Sem me dar tempo para processar o despejo de um dos maiores poetas do século XX, prosseguiu:
— Michelle e John Phillips escreveram “Twelve Thirty” no 507.
E começou a cantarolar a canção diante do balcão, como se estivesse realizando um breve espetáculo particular para hóspedes recém-chegados. Terminada a apresentação, retornou abruptamente ao papel de administrador.
— Precisamos de um mês adiantado.
Paguei.
— E não fume na cama.
Assenti.
— Nenhum tipo de cigarro.
Assenti novamente.
— Absolutamente nenhum.
A insistência sugeria que o regulamento havia sido escrito sobre cinzas ainda fumegantes.
— Se precisar fumar, o parque é mais seguro.
Agradeci a recomendação. Não era exatamente o tipo de conselho que se esperava de um hotel, mas Nova York parecia funcionar segundo regras próprias.
Naqueles anos, a cidade atravessava um de seus períodos mais turbulentos. Os jornais anunciavam assaltos, falências, greves e apagões iminentes. Políticos conservadores do Meio-Oeste descreviam Manhattan como uma nova Sodoma à beira do colapso moral.
Talvez estivessem certos.
Talvez fosse precisamente essa mistura de desordem, liberdade e excentricidade que atraía tanta gente interessante.
A poucas quadras do hotel, a Bleecker Street pulsava como uma artéria da contracultura. O ar carregava o cheiro simultâneo de café, maconha, pizza, tinta fresca e chuva sobre as calçadas antigas. Cartazes contra a Guerra do Vietnã dividiam espaço com anúncios de shows experimentais, reuniões políticas e terapias espirituais capazes de curar quase tudo, exceto a falta de dinheiro.
Músicos surgiam em cada esquina. Alguns tocavam por convicção artística; outros, por necessidade alimentar. Hippies distribuíam panfletos revolucionários com a mesma dedicação de missionários distribuindo evangelhos.
Bob Dylan morava nas redondezas. John Lennon e Yoko Ono apareciam ocasionalmente caminhando de mãos dadas. Certa manhã vi Marcello Mastroianni comprando bananas numa quitanda de bairro. Ninguém demonstrou surpresa. Em Greenwich Village, celebridades eram apenas mais uma espécie da fauna local, tão comuns quanto os cães sem coleira e os gatos que dormiam nas vitrines.
Naquele dia eu seguia em direção a uma pequena mercearia especializada em cafés exóticos. Entre sacas da Etiópia, da Colômbia e da Indonésia, havia também café brasileiro, o que despertava em mim um patriotismo instantâneo e provavelmente desproporcional.
As calçadas estavam tomadas por vendedores ambulantes, músicos, escultores, cartomantes e pintores. Alguns exibiam talento genuíno. Outros confiavam exclusivamente na coragem.
Foi então que avistei o francês.
Ou, pelo menos, aquilo que parecia ser um francês.
Usava boina escura, lenço amarrado ao pescoço, bigode cuidadosamente aparado e uma expressão contemplativa que sugeria longas tardes discutindo arte às margens do Sena. Ao seu lado, uma placa anunciava com letras elegantes:
MONSIEUR RENÉ LA TOUCHE
O nome era tão francês que quase se podia ouvir acordeões invisíveis ao redor da banca.
Sentado diante de um cavalete, o artista pintava retratos em aquarela com habilidade considerável. Turistas se aproximavam atraídos pela combinação irresistível de talento, sotaque estrangeiro e atmosfera parisiense transportada para Manhattan.
Enquanto observava seu trabalho, ouvi uma palavra.
Depois outra.
Havia algo estranho naquele francês.
Seu sotaque não vinha de Paris.
Nem de Marselha.
Nem de Lyon.
Parei por alguns instantes.
O homem falava um francês extraordinariamente parecido com português nordestino.
A suspeita aumentou quando uma expressão familiar escapou entre uma pincelada e outra.
A revelação veio logo em seguida.
Monsieur René La Touche era Ivan Freitas.
Da Paraíba.
Durante alguns segundos ficamos apenas nos olhando, como se estivéssemos tentando entender por quais desvios geográficos um paraibano havia se transformado em artista francês numa calçada de Greenwich Village.
Nova York tinha milhões de habitantes, mas possuía a estranha capacidade de encurtar distâncias. Às vezes parecia que o mundo inteiro cabia em algumas quadras.
Passei a encontrá-lo regularmente.
Suas obras haviam se afastado do surrealismo que eu conhecera anos antes. Agora mergulhava nas tintas acrílicas com entusiasmo quase militante. As cores saltavam da tela. Praias, figuras humanas e paisagens tropicais apareciam reinterpretadas por alguém que carregava a Paraíba na memória enquanto observava Nova York pela janela.
Certa tarde perguntei por que adotara um pseudônimo francês.
Ivan sorriu.
Era um sorriso de quem já havia respondido aquela pergunta muitas vezes.
— Vai que um dia eu fico famoso.
Ri.
Mas ele não estava brincando inteiramente.
Naquele mundo, um nome francês parecia carregar mais prestígio do que um sobrenome nordestino.
Havia ironia suficiente nisso para encher uma galeria inteira.
Anos mais tarde, já na década de 1980, visitei a Galeria Gamela.
Lá estavam expostos os quadros de Ivan Freitas.
Ou talvez fosse mais correto dizer: os quadros de Monsieur René La Touche.
O acrílico havia triunfado.
O artista das calçadas agora ocupava paredes iluminadas e recebia a atenção respeitosa dos visitantes.
Escolhi uma tela particularmente bonita. Meu filho mais velho examinou-a em silêncio durante alguns instantes.
Depois apontou para um detalhe em outra tela.
— Pai, tem um código de barras pendurado sobre a praia.
Olhei novamente.
Lá estava.
Suspenso acima da paisagem tropical como um estranho cometa comercial.
De repente a cena deixou de ser apenas uma praia. Parecia um comentário involuntário sobre o mundo moderno: até o paraíso precisava de etiqueta de preço.
Achei prudente não compartilhar a observação com o artista.
Comprei o outro quadro.
É o que permanece comigo até hoje.
Quando o observo, lembro-me menos da pintura do que daquele encontro improvável numa calçada da Bleecker Street: um francês que era paraibano, uma Nova York que parecia uma aldeia e uma época em que bastava dobrar uma esquina para encontrar uma história que ninguém acreditaria se não tivesse acontecido.
Palmarí H. de Lucena
Versão original publicada no meu livro Nem Aqui, Nem Alí, Nem Acolá