Enchentes, praias e falésias: os limites da gestão urbana em João Pessoa

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Enchentes, praias e falésias: os limites da gestão urbana em João Pessoa

Chove em João Pessoa — e a cidade sente. Ruas alagam, o trânsito paralisa, moradores improvisam barreiras diante de casas e comércios. A repetição desses episódios já não permite tratá-los como exceção meteorológica. Eventos climáticos intensos são uma realidade crescente, mas seus efeitos variam conforme a qualidade do planejamento urbano.

A capital paraibana expandiu-se rapidamente nas últimas décadas. O solo natural cedeu espaço ao asfalto, aos edifícios e à ocupação de áreas antes permeáveis. Esse processo, comum às cidades brasileiras, exige contrapartidas técnicas: ampliação da drenagem, preservação de áreas de infiltração, controle rigoroso do uso do solo. Quando tais medidas não acompanham o ritmo da urbanização, a chuva deixa de ser apenas fenômeno natural e passa a ser fator de risco.

A responsabilidade pela coordenação dessas políticas é da Prefeitura de João Pessoa. A manutenção contínua de galerias pluviais, a fiscalização de ligações irregulares e o planejamento preventivo deveriam integrar uma estratégia permanente de adaptação climática. O que se observa, contudo, é a persistência de ações fragmentadas, muitas vezes reativas, que não eliminam as causas estruturais do problema.

Os reflexos ultrapassam o espaço urbano. Após períodos de chuvas intensas, a qualidade da água em trechos da orla costuma sofrer impacto, resultado do carreamento de resíduos e de conexões indevidas entre redes de esgoto e drenagem pluvial. A balneabilidade das praias, monitorada pela Superintendência de Administração do Meio Ambiente da Paraíba, torna-se variável justamente quando a cidade deveria preservar seu principal patrimônio natural.

Há também a questão das falésias do Cabo Branco, especialmente na área do Altiplano. Trata-se de formação geológica sensível, sujeita a processos naturais de erosão que podem ser agravados por intervenções inadequadas e pela drenagem insuficiente. A ocupação e o adensamento na borda dessas áreas exigem monitoramento técnico rigoroso e políticas claras de contenção e preservação.

Enchentes, poluição costeira e instabilidade das falésias não são fenômenos isolados. São manifestações interligadas de uma mesma equação urbana: crescimento acelerado, infraestrutura aquém da demanda e planejamento ambiental insuficientemente integrado.

A gestão municipal tem investido na promoção de eventos e no fortalecimento do turismo, estratégia legítima para dinamizar a economia local. O desafio, entretanto, é garantir que esse modelo de desenvolvimento seja compatível com a capacidade ambiental e estrutural da cidade. Turismo e sustentabilidade não são conceitos antagônicos, mas exigem coordenação, investimento técnico e visão de longo prazo.

Uma cidade costeira que se orgulha de sua qualidade de vida precisa medir seu sucesso não apenas pela agenda cultural ou pelo fluxo de visitantes, mas pela resiliência de sua infraestrutura e pela preservação de seus ecossistemas. A chuva continuará a cair. A diferença estará na capacidade de a administração pública antecipar riscos, integrar políticas e transformar recorrência em solução — não em rotina.

Por Palmarí H. de Lucena