“Em se plantando, tudo dá?”

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“Em se plantando, tudo dá?”

Quando Pero Vaz de Caminha escreveu que, nesta terra, “em se plantando, tudo dá”, registrava mais do que uma observação botânica. A frase condensava o assombro de um território percebido como promessa: solo fértil, abundância natural, futuro aberto. Cinco séculos depois, a sentença sobrevive como mito fundacional — mas já não pode ser repetida sem interrogação.

O Brasil contemporâneo continua sendo um país que produz. Produz alimentos, cultura, inovação, ciência, linguagem. Produz também improviso, desigualdade, ruído e frustração. Tudo parece brotar com rapidez desconcertante. A questão não é a fertilidade do solo social, mas a ausência recorrente de critérios sobre o que se planta — e para quem se colhe.

A abundância brasileira nunca foi apenas material. Há, historicamente, uma capacidade notável de adaptação, de criação em ambientes adversos, de reinvenção cotidiana. Mas essa mesma plasticidade, quando não acompanhada de instituições sólidas e escolhas consistentes, transforma-se em tolerância ao improviso permanente. Confunde-se flexibilidade com falta de método; resiliência com conformismo.

Ao longo do tempo, plantaram-se boas ideias sem sustentação, políticas públicas sem continuidade, promessas sem prestação de contas. O solo respondeu, como sempre responde: deu frutos desiguais. Onde houve cuidado, planejamento e persistência, houve avanço. Onde se apostou apenas na retórica ou no curto prazo, cresceu o mato alto da ineficiência.

Repetir hoje que “em se plantando, tudo dá” sem ressalvas é abdicar da responsabilidade política e moral que a própria frase exige. A terra não é seletiva; quem precisa ser seletivo é quem decide. Fertilidade não substitui projeto. Abundância não compensa ausência de governança. Esperança não sobrevive sem método.

O Brasil não sofre por esterilidade. Sofre por dispersão. Há energia demais sendo lançada em direções contraditórias, sem coordenação, sem horizonte comum. Planta-se muito, mas colhe-se pouco do que poderia ser colhido — e quase sempre por eles.

Talvez o maior equívoco contemporâneo seja tratar a generosidade histórica do país como garantia automática de futuro. Ela não é. É apenas uma condição inicial favorável. O resto depende de escolhas, de prioridades e de responsabilidade sobre os efeitos do que se semeia.

A frase de Caminha continua válida, mas incompleta. Aqui, plantando, tudo pode dar. A pergunta que o Brasil precisa responder — finalmente — é o que insiste em plantar e quem, de fato, tem acesso à colheita.

Porque a terra continua pronta.
O desafio, como sempre, está acima do solo.

Por Palmarí H. de Lucena