Ebe yε yε: Lições de Permanência

Ebe yε yε: Lições de Permanência

Retornei à África em 1980, desta vez para ficar. A decisão começou longe dali, numa coluna discreta do New York Times: procurava-se um diretor para um programa humanitário. Descobrimos que era uma agência católica. Bastou. Não era um gesto de caridade que nos movia — era a vontade de estar, de partilhar o tempo e o acaso. Fomos aceitos. Partimos.

Acra não oferece transição. O aeroporto é um lugar de choque: vozes sobrepostas, línguas que se cruzam, o cheiro espesso do dendê, música que aparece sem fonte visível. Carregadores tomam a iniciativa da sua chegada. Nada pede licença. A cidade não se explica; ela se impõe.

A escassez era evidente, mas não definitiva. Havia uma inteligência prática no ar — uma economia do improviso. Tecidos tornavam-se roupas, roupas tornavam-se outras roupas. Em akan, chamavam de obruni waawu — “roupa de defunto branco”. Dito sem drama, como quem descreve o clima.

Os códigos do corpo também eram outros. Os seios não eram assunto; eram função. Cruzar as pernas, sim, podia ser lido como provocação. Pequenas inversões que desarrumavam nossos mapas.

Um contêiner de sutiãs chegou meses depois, fruto de boas intenções distantes. Eram pequenos demais. Foram aceitos assim mesmo. Cortados, costurados, reinventados em bolsas. As etiquetas estrangeiras, exibidas como valor. Vendidas no Togo. Com o dinheiro, vieram água, ferramentas, abrigo. Não houve discurso — apenas solução.

Com o tempo, percebi que, mesmo quando faltava quase tudo, não faltava o gesto. A disponibilidade para o outro surgia sem cerimônia. Minha casa foi invadida um dia por um grupo de ganeses — rindo, falando alto, decididos. Fui conduzido a uma aldeia. Vestiram-me com panos, cobriram-me de cinza, cantaram. Não houve explicação prévia. Recebi um nome — Nana Kwame Palmarí. Chefe tribal honorário. Um pertencimento provisório, mas real enquanto durou.

Se havia acolhimento, havia também dureza. O país carregava as marcas de escolhas políticas que não fechavam conta: empresas estatais proliferadas, agricultura negligenciada, inflação corroendo salários até níveis de outra década. Entre a ambição panafricanista e o cotidiano, abria-se um intervalo. Nesse intervalo, uma palavra circulava: kalabule. Começara no comércio — preços inflados, mercadoria escondida — e acabara por nomear um método: a adaptação permanente às falhas do sistema.

Na estrada, vimos o método em ação. Um homem caído, cercado por uma multidão. Jacques, nosso motorista, atravessou com um cano de ferro e bateu no corpo até que a cena se dissolvesse. Voltou, como quem cumpre uma tarefa. Protestamos. “Ladrão”, disse. E isso parecia resolver a equação.

Linchamentos não eram exceção. Bastava a palavra certa, no momento certo. Barricadas militares surgiam para cobrar passagem. Cargas desapareciam. Navios eram saqueados. O mercado negro deixava de ser margem e passava a ser regra.

Em 1981, um novo golpe reorganizou o medo. Voltamos a um país de silêncio e botas. As prateleiras esvaziaram de vez. Aprendemos o caminho de Lomé, no Togo, como quem aprende uma rotina de sobrevivência.

Numa dessas voltas, uma barreira nos parou. Carabinas apontadas. Descemos. Fomos levados a uma palhoça. Acusados de crimes contra a economia. Não havia processo, apenas um teatro mínimo de autoridade. Horas com o metal encostado na cabeça. O guarda relaxou. Pediu um cigarro. Observou nossos sapatos. “Ficam”, disse.

Um oficial apareceu. Documentos folheados, perguntas breves. Estávamos livres. Devolveu-nos os sapatos. Ao nos afastarmos, ouvimos o grito. O mesmo guarda era espancado — coronhadas, chutes, sangue. Voltamos por impulso. O oficial nos cortou: punição. “Ladrão”. Justiça. Tudo cabia na mesma frase.

Noutro dia, no Norte, uma guerra por terra de inhame — konkombas e nanumbas — produzia mortos, deslocados, campos queimados. A ajuda avançava aos solavancos, parada por pedágios improvisados e lealdades voláteis. Nana Adjei trouxe a notícia: quarenta toneladas de alimentos perdidas; o motorista, morto por flecha envenenada com bílis de crocodilo. Improvável — e, ainda assim, aceitável naquele quadro. Entre expatriados, o rumor virou pânico: diziam não haver antídoto em lugar algum. O medo preencheu as lacunas.

Semanas depois, a indenização foi dispensada. Meses depois, na despedida, Nana revelou o resto da história: o motorista estava vivo. Casado. Do outro lado. Não havia desmentido, apenas outra camada.

E, no entanto, havia uma frase que insistia em aparecer, discreta e suficiente: Ebe yε yε. Vamos conseguir. Não como consolo, mas como prática. Uma maneira de continuar sem garantias.

Anos mais tarde, reconheci essa mesma lógica no futebol. Em 2010, o continente jogava em casa. Não era surpresa que surpreendesse. A Zâmbia — quase inteira perdida num acidente aéreo em 1993 — voltara a campo. Em Lusaka, vi um jogo. Quando Kalusha entrou, não era só um jogador — era a prova de que se pode recomeçar com o que sobra. O gol veio no fim. Como convém.

A África não se deixa reduzir a um enredo. Ela se move por justaposição: acolhimento e risco, invenção e falha, gesto e ruptura. Aprendi menos a explicar do que a acompanhar.

Viajar deixou de ser deslocamento. Tornou-se atenção.

E, no fim, entendi que não se tratava de ficar.

A África continuou a viagem comigo.

Ebe yε yε.

Por Palmarí H. de Lucena