Dos Autos da Urna: quando Lampião Gaúcho, Capitão Maradona e Papaléguas pedem a palavra

Dos Autos da Urna: quando Lampião Gaúcho, Capitão Maradona e Papaléguas pedem a palavra

Há documentos que revelam mais sobre um povo do que qualquer tratado de sociologia. A lista de candidatos de uma eleição, por exemplo, é dessas peças processuais da alma coletiva: aparentemente burocrática, numerada, organizada por partidos e siglas, mas, quando lida com a devida atenção, transforma-se num inventário involuntário do imaginário popular. A relação de candidatos a deputado estadual na Paraíba parece ter sido redigida sob a influência simultânea de um cartório eleitoral, uma feira livre, um estádio de futebol, um quartel e uma noite de São João. Nos autos da urna, a formalidade institucional convive com a mais absoluta liberdade criativa.

É difícil não reconhecer a peculiar jurisdição desse universo quando surgem, na mesma relação, figuras como Lampião Gaúcho, Capitão Maradona, Gilson Dantas, o Papaléguas, e Sargento Ivaldo Garrincha. Trata-se de uma reunião de personagens que desafia qualquer competência territorial, histórica ou esportiva. Lampião, convocado pelo sertão, encontra um gaúcho; Maradona recebe patente militar; Garrincha entra no processo pela via do sargento; e Papaléguas, se respeitar a própria jurisprudência dos desenhos animados, certamente será o primeiro a chegar ao comício e o último a ser alcançado pelos adversários.

Se a eleição fosse uma audiência, o juiz eleitoral talvez precisasse pedir ordem no recinto. “Concedo a palavra ao Capitão Maradona.” O plenário hesitaria entre prestar continência ou preparar uma cobrança de pênalti. Em seguida, seria ouvido Lampião Gaúcho, personagem que parece ter resolvido, por iniciativa própria, uma antiga disputa federativa entre o cangaço e os pampas. Depois viria Papaléguas, provavelmente em velocidade incompatível com qualquer prazo processual.

Há também candidatos cujo nome já constitui uma espécie de prova documental de identidade profissional. Cláudio, o Servente de Obras, por exemplo, apresenta-se ao eleitor sem necessidade de perícia complementar. O nome é praticamente uma declaração pública, um currículo resumido e uma placa de serviço. Em tempos nos quais tanta gente tenta explicar quem é por meio de slogans cuidadosamente fabricados, há uma elegância quase jurídica na objetividade: Cláudio, o Servente de Obras. Não há preliminar, não há recurso, não há embargos de declaração. Está tudo dito.

No mesmo processo eleitoral comparecem Madalena Cabeleireira e Poca Cabeleireiro, o que permite concluir que, independentemente do resultado das urnas, a representação popular não ficará completamente desamparada em matéria de estética. Marcia da Salada também surge como uma figura de interesse público, especialmente num ambiente político em que o eleitor costuma passar quatro anos tentando digerir promessas. Talvez seja prudente, portanto, acrescentar mais verduras ao debate.

Carlão Pelo Bem apresenta outra tese difícil de contestar. Afinal, quem se apresentaria oficialmente como candidato pelo mal? A expressão contém, em si mesma, uma presunção favorável, quase uma cláusula moral antecipada. No tribunal da propaganda eleitoral, “pelo bem” é uma defesa que chega antes da acusação.

A lista revela ainda a extraordinária capacidade brasileira de transformar profissão, apelido, memória familiar e reconhecimento comunitário em identidade política. Há agentes de saúde, representantes da educação, professores, professoras, doutores, capitães, coronéis, sargentos, tenentes e subtenentes. Há nomes que parecem trazer consigo uma pequena biografia e outros que dispensam qualquer fundamentação. Diva, por exemplo. Apenas Diva. Nenhum sobrenome, nenhuma explicação, nenhum aditamento. É uma petição curta e segura. Excelência, os fatos falam por si.

No fundo, os nomes de urna são uma espécie de jurisprudência popular. Não são escolhidos apenas porque soam engraçados ou chamativos. Muitos carregam décadas de convivência, apelidos dados por vizinhos, profissões exercidas diante da comunidade e identidades construídas muito antes de qualquer campanha. O eleitor talvez não conheça o nome completo registrado no documento civil, mas sabe perfeitamente quem é o Papaléguas, quem é o Cabeleireiro, quem é o Agente de Saúde, quem é o da Educação e quem é aquele sujeito que todo mundo conhece simplesmente por Zezé.

E talvez seja exatamente essa a beleza — e a comicidade involuntária — do processo. A política tenta se apresentar como matéria de alta complexidade institucional, revestida de siglas, federações, números, regras e solenidades. Mas, no momento decisivo, ela precisa entrar na casa do povo usando o nome pelo qual o povo a reconhece. É assim que o formalismo do Estado encontra o apelido da rua.

A lista eleitoral, portanto, deveria ser considerada documento de relevante valor cultural. Nela convivem a República e a feira, o plenário e o estádio, o quartel e o salão de beleza, a academia e a esquina. E enquanto juristas discutem competências, partidos negociam alianças e candidatos apresentam programas, a democracia brasileira continua produzindo uma de suas obras mais originais: uma urna capaz de reunir, sob o mesmo teto institucional, Lampião Gaúcho, Capitão Maradona, Papaléguas, Garrincha, Marcia da Salada e Diva.

Se isso não constitui prova suficiente da criatividade nacional, que se junte aos autos.

E que a Justiça Eleitoral decida.

Mas, antes, por favor, alguém explique a Lampião Gaúcho em qual comarca ele pretende tomar chimarrão.

Palmarí H. de Lucena