Dona Neusa e o poeta

Photo by Palmarí H. de Lucena 2006
Dona Neusa e o poeta

Removendo os pés do pufe, ela tocou de leve o assento — um gesto simples, mas cheio de elegância. Era um convite silencioso:
“Sente aqui, meu filho.”

Logo vieram o lanche, o copo d’água, o afeto de sempre. Começava o ritual da tarde: o boletim da capitã do barco, sentada confortavelmente em sua poltrona no centro do quarto.
Falava dos filhos, netos, bisnetos, das viagens, dos triunfos pequenos e grandes — uma crônica familiar transmitida em voz mansa.
Conhecida por todos como Dona Neusa, para mim era simplesmente Mãe.

Falávamos das lembranças — as dela, as minhas, misturadas.
Recordávamos os bairros acolhedores de um tempo em que as famílias se reuniam nas calçadas e o mundo ainda cabia no quintal.
Os olhos seguiam o traço luminoso do Sputnik no céu, enquanto as crianças brincavam no tapete mágico das ruas sem calçamento.
Os vizinhos, com o rádio na janela, repetiam partidas do Mundial gravadas em vinil, como se cada replay reacendesse uma alegria antiga.
E no cinema do bairro, o noticiário mostrava a moda de inverno em Paris, em pleno verão paraibano.
Era um tempo em que as novidades não eram instantâneas — chegavam devagar, e por isso mesmo eram saboreadas.
Um mundo pequeno, mas cheio de grandezas inventadas.

Mudamos para a varanda; o calor era intenso, quase um personagem.
Ali, entre o cheiro de buganvílias e café, voltamos a uma lembrança antiga: um livro de poesias chamado Emoções, do doutor Osório Paes — dentista por ofício, poeta por destino.
O bardo da Rua da Areia havia presenteado à jovem admiradora um exemplar autografado.
O tempo, com sua pressa habitual, o levou.
Tentamos reencontrá-lo em sebos e livrarias, mas o livro só existia na lembrança viva da leitora.

Então ela fechou os olhos, inclinou a cabeça para trás, e de algum lugar do cérebro — talvez do coração — começou a recitar:

Oh palidez, imácula, bendita,
A palidez serena do teu rosto,
Que me tem sido tanta vez maldita,
E que tem sido na vida o meu desgosto.

Piedosos olhos, assassinos olhos,
Brilhando em convulsões de quem padece.
Farol mostrando o ponto dos escolhos,
Elevo nessa luz a minha prece.

Fomos, então, procurar o consultório do poeta — na Rua da Areia, claro, a única pista de seus dias na cidade.
Nada encontramos.
O mundo do poeta havia desaparecido, engolido por uma monstruosidade chamada Via Expressa.
A tal renovação urbana — tantas vezes maldita — soterrara os últimos vestígios do lugar onde ele escrevera seus versos.

Restaram apenas as palavras, gravadas na memória de Dona Neusa, a adolescente que seguiu pela vida embalada pelos versos de um poeta.
E enquanto o sol se punha atrás das mangueiras, percebi que a poesia não estava perdida: estava nela.

Lembrança de minha mãe, Neusa, nascida no dia 23.10.1916

Por Palmarí H. de Lucena