Dolly Parton e a arte de conversar com todo mundo

Dolly Parton e a arte de conversar com todo mundo

Há, na vida pública, uma forma de grandeza que não se mede apenas pelo número de pessoas que nos escutam, mas pela capacidade de fazer com que pessoas diferentes continuem dispostas a se ouvir. Em tempos de identidades políticas cada vez mais rígidas, essa qualidade adquiriu um valor quase raro. Dolly Parton parece ter compreendido isso muito antes de a polarização transformar cada opinião em uma espécie de documento de identidade.

Sua trajetória guarda algo de profundamente americano e, ao mesmo tempo, universal. Nascida em circunstâncias humildes, numa família numerosa do Tennessee, Dolly construiu sua vida sobre o trabalho, a música, a memória familiar, a fé, o humor e uma extraordinária capacidade de compreender a natureza humana. Sua história poderia facilmente ter sido transformada em uma narrativa de ressentimento ou de triunfo individual. Ela preferiu outro caminho: fez de sua biografia uma ponte.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais sua presença pública consiga atravessar ambientes políticos tão diferentes. Dolly não precisa que todos concordem com ela para que possam gostar dela. Há, em sua persona, alguma coisa anterior às disputas partidárias: a lembrança da pobreza, o valor da família, a dignidade do trabalho, a importância da educação e a possibilidade de uma criança imaginar para si uma vida diferente daquela que as circunstâncias inicialmente lhe reservaram.

Essa última ideia não é apenas uma metáfora em sua trajetória. Suas iniciativas em favor da leitura e da educação infantil transformaram sua celebridade em algo mais próximo de um compromisso público. Quando uma criança recebe um livro, a discussão sobre sua orientação política ou a de sua família perde relevância. O que permanece é a possibilidade de aprender, imaginar e escolher um caminho próprio. Há uma elegância particular em uma causa que não precisa perguntar primeiro de que lado está aquele que será beneficiado.

É talvez aí que Dolly tenha conseguido algo que muitas personalidades públicas procuram e poucas alcançam: fazer da filantropia uma linguagem de aproximação, e não mais um campo de batalha.

Essa reflexão nos leva, inevitavelmente, ao Brasil e à extraordinária força de nossos artistas sertanejos. Poucos segmentos da cultura brasileira possuem tamanho poder de comunicação popular. O sertanejo conhece a linguagem sentimental do país; conhece a família, a estrada, o trabalho, a saudade, o amor perdido, a esperança, a religiosidade e as pequenas alegrias que tornam suportável a vida cotidiana. Seus artistas entram na casa de milhões de pessoas e, muitas vezes, permanecem ali por décadas.

Esse patrimônio afetivo é imenso.

Mas influência não é apenas audiência. Há uma diferença entre conseguir que milhões de pessoas nos escutem e conseguir que pessoas diferentes se reconheçam umas nas outras. A primeira é uma conquista artística. A segunda é uma responsabilidade pública.

Em uma sociedade tão atravessada pela disputa política, é tentador transformar toda causa em território de um lado contra o outro. Educação passa a ter partido; pobreza ganha discurso eleitoral; infância vira argumento; solidariedade recebe uma etiqueta ideológica. E aquilo que poderia aproximar acaba servindo para separar.

Dolly parece ter encontrado uma alternativa mais sutil. Ela não precisou renunciar às próprias convicções para falar com pessoas diferentes. Também não precisou fingir que as diferenças não existem. O que fez foi preservar, em determinadas causas, um espaço suficientemente amplo para que pessoas que discordam em muitos assuntos ainda pudessem colaborar em alguns.

Isso não é neutralidade. É uma forma mais difícil de universalidade.

Um artista pode ter opinião política, pode defender valores, pode participar do debate público e, ainda assim, reconhecer que sua influência não precisa ser usada para transformar o outro em inimigo. Pode falar de educação sem transformar a educação em propriedade de uma corrente política; defender crianças sem perguntar em quem seus pais votam; apoiar famílias sem exigir delas uma identidade ideológica; combater a pobreza sem fazer do pobre um personagem de propaganda.

Talvez essa seja uma das lições mais interessantes que Dolly oferece ao Brasil.

Não se trata de perguntar qual artista brasileiro poderia ser uma nova Dolly Parton. Isso seria reduzir uma experiência singular a uma fórmula. A pergunta mais fecunda é outra: o que nossos artistas poderiam fazer com a confiança que receberam de seu público?

Os sertanejos já sabem reunir multidões em torno de uma canção. Já sabem transformar versos em lembranças familiares e melodias em parte da memória de uma geração. Talvez o passo seguinte seja descobrir como utilizar essa mesma força para aproximar pessoas que, fora daquele espaço, dificilmente se sentariam à mesma mesa.

Há algo de profundamente memorialista nessa ideia. Quando recordamos as canções que acompanharam nossa juventude, raramente lembramos em quem o cantor votava. Lembramos onde estávamos, quem estava conosco, uma estrada, uma casa, uma festa, uma perda, um amor. A música sobrevive porque se mistura à nossa própria história.

Talvez a verdadeira grandeza de um artista esteja justamente nessa capacidade de entrar na memória coletiva sem exigir que todos tenham a mesma memória política.

Dolly Parton construiu uma carreira que parece compreender essa delicada distinção. Sua influência não depende apenas da admiração que desperta, mas da possibilidade de que pessoas diferentes encontrem nela alguma coisa que reconhecem como sua. Sua história pertence a uma mulher, mas também passou a pertencer, em alguma medida, a todos aqueles que nela encontraram trabalho, humor, esperança, generosidade ou simplesmente uma lembrança feliz.

Em uma época em que tantas vozes parecem interessadas em erguer muros, talvez seja oportuno lembrar que a cultura possui outra vocação. Ela pode guardar as diferenças sem transformá-las em abismos. Pode preservar a individualidade sem destruir a comunidade. Pode nos lembrar, sobretudo, que antes de sermos membros de grupos políticos somos pessoas com histórias, famílias, perdas, sonhos e memórias.

Talvez seja esse o sentido mais profundo daquela ponte imaginária entre o campo e a cidade, entre a infância e a maturidade, entre quem pensa de um jeito e quem pensa de outro. Pontes não exigem que as margens se tornem iguais. Elas existem precisamente porque as margens permanecem diferentes.

E talvez a influência mais bonita de um artista não seja fazer com que todos olhem para ele.

Seja conseguir, depois de tantos anos, fazer com que as pessoas voltem a olhar umas para as outras.

Palmarí H. de Lucena