Dois Viajantes do Imaginário — Peer Gynt e o Pavão Misterioso

Dois Viajantes do Imaginário — Peer Gynt e o Pavão Misterioso

Era uma vez dois viajantes.
Um nasceu nas montanhas frias da Noruega.
Chamava-se Peer Gynt, filho da imaginação de Ibsen.
Mentiroso, sonhador, inquieto.
Corria o mundo em busca de grandezas.
Entrou em florestas de trolls, atravessou desertos de miragens, navegou mares sem fim.
Mas a cada passo, perdia-se de si mesmo.
Quando voltou, já velho, trazia apenas o vazio.
Peer é o retrato do homem moderno: corre muito, encontra pouco.
Olha no espelho, vê apenas abismo.

O outro nasceu no agreste do Brasil.
É o Pavão Misterioso, filho do cordel de José Camelo de Melo Rezende.
Ave de plumas turquesa, motor de fantasia.
Cruza nuvens de algodão, espelhos de açudes, feiras e praças.
Não viaja por si, mas pelo povo que o sonhou.
Cada rima é asa, cada verso é combustível, cada cantador é piloto.
O Pavão não se perde: encontra.
E o que encontra é esperança.

Dois viajantes, dois destinos.
Peer mergulha para dentro e se dissolve.
O Pavão abre-se para fora e floresce.
Peer é vertigem.
O Pavão é horizonte.

E hoje, no mundo dos aviões supersônicos,
dos drones de guerra e foguetes para planetas,
eles continuam conosco.
Peer aparece no homem que corre sem rumo,
no jovem que desliza telas sem se reconhecer.
O Pavão ressurge no canto popular,
na palavra que resiste,
no sonho que se compartilha.

Entre fiordes e agrestes,
entre abismos e asas,
está a escolha de cada tempo.
Ser Peer, viajante do vazio.
Ou ser Pavão, viajante da esperança.

Peer voa em círculos até se perder no nada.
O Pavão atravessa a noite e colore o amanhecer.
Por isso a pergunta ecoa:
somos espelhos que se quebram ou pássaros que se inventam?
abismos ou asas?

Que sejamos o Pavão que ousa voar.
Porque só no voo partilhado a imaginação encontra pouso.
E só no sonho comum a vida se transforma em futuro.

Por Palmarí H. de Lucena