Bem-vindos ao Chinglish

Bem-vindos ao Chinglish

Antes de partir para a China, disseram-nos que Phillips falava inglês fluentemente. A informação nos tranquilizou. Tínhamos o bilhete pago e menos de duas horas para o voo. Phillips chegou, cumprimentou-nos, disse o nome da companhia aérea e repetiu os números dos nossos voos, tudo em inglês e em ritmo acelerado. Pedimos algumas informações. Ele repetiu as mesmas palavras. Repetimos a pergunta. Ele repetiu tudo outra vez. Durante quase meia hora, permanecemos naquele estranho exercício de comunicação em que duas pessoas falam inglês e nenhuma delas entende a outra. Finalmente, Phillips descobriu o que queríamos: o código da reserva. Tentou soletrar letras e números, mas continuamos sem compreender. A solução foi enviar as informações por e-mail. Funcionou. Foi nossa primeira lição de uma viagem em que, muitas vezes, a tecnologia se mostraria mais fluente que o inglês.

Chegamos a Guangzhou, no sul do país, e do aeroporto ao centro levava-se cerca de uma hora. Pela janela do carro, a cidade aparecia aos poucos: árvores, jardins, viadutos, edifícios, fábricas, conjuntos residenciais e uma quantidade impressionante de placas. Os caracteres chineses estavam por toda parte, grandes, pequenos, luminosos, vermelhos, dourados, compondo uma paisagem gráfica que nos era ao mesmo tempo incompreensível e fascinante. Alguns letreiros traziam uma tradução em inglês, como se a cidade tivesse começado a colocar legendas em si mesma. Guangzhou era uma cidade de negócios, e isso se percebia antes mesmo de sabermos onde estávamos. A China havia iniciado, algumas décadas antes, uma transformação que modificaria sua economia e sua posição no mundo. Na paisagem urbana, porém, essa transformação não aparecia como história, mas como movimento: construções, mercadorias, trânsito, hotéis, restaurantes, fábricas e anúncios. Tudo parecia apontar para a mesma direção: negócios, negócios, negócios.

Foi nesse cenário que encontramos um dos primeiros grandes monumentos do Chinglish: um enorme painel anunciando “Hospital for Male Disorders”. Paramos para olhar. Nosso guia percebeu a curiosidade e começou a explicar, mas não havia vocabulário suficiente. Vieram os gestos: apontava para determinadas partes do corpo, fazia expressões faciais e procurava palavras em inglês que não encontrava. Aos poucos, montamos o quebra-cabeça. Provavelmente se tratava de uma clínica de urologia, doenças masculinas, problemas sexuais ou algo semelhante. Não era exatamente uma tradução; era uma negociação entre duas línguas que ainda estavam aprendendo a se encontrar. Naquele momento, começamos a perceber que a linguagem seria um dos personagens da viagem e que a China estava aprendendo inglês com a mesma velocidade com que construía cidades.

Diziam-nos que mais de 250 milhões de chineses estudavam inglês. Crianças, estudantes, comerciantes, funcionários de hotéis, vendedores, motoristas. Havia cursos por toda parte e uma pressão evidente para que o país pudesse conversar melhor com os estrangeiros. O problema surgia quando o inglês aprendido nas salas de aula encontrava a vida real. Muitos pareciam ter decorado frases inteiras, como quem carrega no bolso um pequeno manual de conversação. Ouvimos “Welcome to take taxi!”, “Do you like me?”, “Do you like shopping?”, “Look happy!”, “Do you like first time in China?”, “You are my best person!”, “Long time no see” e “You like warm dog?”. Algumas provocavam riso; outras pareciam saídas de um sonho. Mas havia nelas uma coisa que o humor não escondia: eram tentativas sinceras de aproximação. Todo viajante já passou por isso, falando uma língua estrangeira com as poucas palavras disponíveis, completando o que falta com gestos e esperando que o outro faça a mesma operação do outro lado.

Nos restaurantes, o Chinglish ganhava outra dimensão. Os cardápios bilíngues eram pequenas coleções de poesia involuntária. Alguns pratos apareciam traduzidos como “husband-and-wife lung slices”, “chicken without sexual life” e “three fresh things from the ground”. A comida podia ser excelente; o inglês é que às vezes precisava de coragem. O curioso era que a tradução literal conservava as palavras e perdia alguma coisa do mundo que existia entre elas. O estrangeiro lia uma frase e imaginava uma coisa, o chinês pretendia dizer outra e, no fim, o prato chegava à mesa para resolver a questão. Em certos casos, a melhor tradução era simplesmente experimentar a comida e deixar que o paladar fizesse o trabalho que as palavras não conseguiam fazer.

Nas ruas, as placas contavam a mesma história. Em Pequim, encontramos um “Hospital for Anus and Intestine Desease”. A grafia já denunciava a dificuldade, e a formulação completava o efeito. Mais tarde, soubemos que o hospital passara a se chamar “Dongda Proctology Hospital”. Nos banheiros públicos, havia placas como “teliot” e “urine district”, expressões que exigiam algum esforço de interpretação. Contava-se que o governo de Xangai havia determinado a substituição de mais de dez mil placas mal traduzidas. A cidade queria receber o mundo e precisava, antes de tudo, descobrir como ser compreendida por ele. Vistas em conjunto, aquelas placas pareciam registrar uma transformação maior: um país que estava aprendendo a se traduzir enquanto se abria para o exterior.

Na noite de 20 de junho, porém, surgiu uma questão mais urgente. O Brasil jogaria contra a Costa do Marfim pela Copa do Mundo de 2010. Estávamos do outro lado do planeta, mas o futebol tinha a capacidade de abolir distâncias. Queríamos ver o jogo. Ligamos a televisão do hotel, mas o controle remoto parecia ter sido fabricado para uma espécie de inteligência artificial chinesa. Apertamos botões, mudamos de canal, voltamos, tentamos novamente. Nada. Chamamos a camareira. Ela entrou no quarto com a expressão de quem havia sido convocada para resolver um problema de física. Tentamos explicar: “Football”, “Brazil”, “Football”. Ela não entendia. Fizemos gestos. Nada. Até que, num momento de desespero, começamos a chutar uma pequena almofada sobre a cama, imitando uma bola. Ela observou a cena, pegou a almofada e saiu do quarto.

Ficamos olhando um para o outro, sem saber se havíamos sido compreendidos ou se simplesmente conseguíramos expulsá-la. Pouco depois, ela voltou. Mexeu no controle, apertou alguns botões e, finalmente, encontrou o canal. Era o jogo. O Brasil já havia marcado o primeiro gol. A transmissão era em chinês, e o narrador falava com uma intensidade que provavelmente reservaria a qualquer acontecimento decisivo da história da humanidade. Não entendíamos uma palavra, mas reconhecíamos o ritmo do jogo, os movimentos dos jogadores, a vibração da torcida e, sobretudo, o gol. Pela primeira vez naquele dia, não precisávamos de tradução: o futebol fazia o trabalho sozinho.

Ainda assim, sentimos falta de Galvão Bueno. Era estranho ouvir um gol brasileiro narrado em chinês. A voz que conhecíamos havia desaparecido, substituída por uma torrente de palavras incompreensíveis. Foi então que percebemos como certas coisas aparentemente banais se tornam importantes quando estamos longe de casa. Não era apenas saudade de um narrador. Era saudade de uma referência, de um som familiar no meio de um mundo que ainda precisávamos decifrar.

A China de 2010 ficou para nós associada a esses pequenos desencontros: o agente que falava inglês e não conseguia explicar uma reserva, o hospital masculino anunciado em letras gigantes, os cardápios que transformavam pratos em enigmas, as frases decoradas, as placas que precisavam ser refeitas e a camareira que não entendia “football”, mas acabou encontrando o jogo. Tudo parecia fazer parte da mesma história. A China estava aprendendo a falar com o mundo, enquanto o mundo aprendia a ouvi-la. Por trás dos erros de tradução havia uma mudança muito maior: as cidades cresciam, o comércio se expandia, milhões de pessoas estudavam inglês e o país se abria para uma circulação de pessoas, mercadorias e ideias que poucos anos antes teria parecido improvável. A dificuldade de traduzir uma placa ou de pedir um canal de televisão era apenas a manifestação miúda de uma mudança muito maior.

É talvez isso que a viagem permite perceber: as grandes transformações aparecem primeiro em coisas pequenas. Uma placa mal traduzida, um cardápio, uma conversa truncada, um controle remoto que ninguém consegue decifrar. Para quem vive dentro de uma mudança histórica, esses episódios são apenas aborrecimentos do cotidiano. Para quem chega de fora, podem funcionar como pequenas janelas. Foi através delas que começamos a perceber a China daquele momento: um país que avançava depressa, mas ainda experimentava maneiras de explicar a si próprio para um mundo que se aproximava.

Phillips finalmente entendeu o que queríamos. Nós conseguimos seguir viagem. A camareira encontrou o jogo. O Brasil marcou seus gols enquanto um narrador chinês falava de coisas que não compreendíamos. No fim, talvez essa tenha sido a melhor síntese daqueles primeiros dias: estávamos cercados por palavras que não sabíamos ler, sons que não sabíamos interpretar e costumes que ainda não conhecíamos, mas algumas coisas continuavam chegando até nós sem tradução. Um gesto, um sorriso, uma gargalhada, o movimento de uma bola e a percepção, quase sempre tardia, de que entender um lugar não começa quando conseguimos traduzir suas palavras, mas quando começamos a observar o que as pessoas fazem com elas.

China, 2010.

Palmarí H. de Lucena