Moro num apartamento no sétimo andar, voltado para o mar. Em dias claros, a vista se impõe. Mas hoje a chuva chegou cedo e transformou a paisagem numa aquarela de cinzas e azuis desbotados. O horizonte desapareceu. O mar e o céu tornaram-se a mesma coisa.
Preparei meu café e fiquei algum tempo no terraço observando a manhã. O vento trazia o cheiro da maresia misturado ao perfume úmido das plantas dos vasos. A chuva caía sem violência, persistente, como quem não tinha compromisso para cumprir.
Depois me ocupei das pequenas tarefas da burocracia doméstica. Paguei uma conta, respondi a uma mensagem do condomínio, organizei alguns papéis acumulados sobre a mesa. Nada importante o suficiente para ser lembrado e, ainda assim, são essas pequenas engrenagens invisíveis que mantêm a vida funcionando.
Entre uma tarefa e outra, voltava ao terraço.
Os beija-flores foram os primeiros visitantes da manhã. Desafiavam a chuva com sua energia incansável, pairando diante das flores por segundos que pareciam suspensos no tempo.
Mais tarde chegaram os bem-te-vis. Pousaram na mureta, observando o movimento lá embaixo com a calma de quem não tem pressa. Sacudiam as penas molhadas e permaneciam ali, donos da manhã.
Os sibites apareceram em seguida.
Vieram aos pares, voando de um lado para outro do terraço. Aproximavam-se, afastavam-se, retornavam. Havia algo de afetuoso em seus movimentos, como se estivessem envolvidos numa conversa silenciosa que dispensava palavras. Pareciam namorar sob a chuva.
Enquanto os observava, pensei em como os dias costumam escapar sem deixar registro. Passamos horas resolvendo assuntos práticos, respondendo mensagens, pagando contas, cuidando da manutenção da existência. Ao final, parece que nada aconteceu.
Mas aconteceu.
A chuva caiu sobre o mar durante toda a manhã.
Os beija-flores visitaram as flores.
Os bem-te-vis vigiaram a paisagem.
Os sibites celebraram sua companhia.
E eu cuidei das pequenas obrigações da casa enquanto o mundo seguia seu curso além da janela.
Agora, ao lembrar deste dia, suspeito que não serão as contas pagas nem os papéis organizados que permanecerão na memória.
Será a chuva.
Será o voo dos pássaros.
Será a sensação de estar no terraço, entre o mar e o céu, enquanto a vida comum, silenciosamente, acontecia.
Palmarí H. de Lucena