Na política, até quem fala em nome do céu precisa prestar atenção ao que acontece na terra.
Deus anda muito requisitado na política brasileira. É chamado para abençoar candidaturas, iluminar decisões e proteger a pátria. Não consta que tenha comparecido a alguma convenção partidária, mas seu nome circula pelos palanques com desenvoltura. É um cabo eleitoral peculiar: não pede cachê, não dá entrevistas e, sobretudo, não desmente quem fala em seu nome.
Os políticos conhecem a força de uma bênção. Os pastores conhecem a força de uma palavra pronunciada diante da congregação. Quando os interesses se encontram, a política ganha ares de culto e o culto, não raro, se aproxima de um comitê eleitoral.
Tudo parece funcionar muito bem até que o rebanho resolve escolher o próprio caminho.
Foi o que me chamou a atenção no artigo do antropólogo Juliano Spyer, publicado na Folha de S.Paulo. Ao examinar a relação entre as lideranças evangélicas e a candidatura de Flávio Bolsonaro, o colunista descreve uma situação curiosa: importantes dirigentes religiosos preferiam Tarcísio de Freitas, por considerá-lo uma alternativa eleitoralmente mais competitiva contra Lula. A preferência, porém, esbarrava na força do bolsonarismo entre os próprios fiéis.
A conta dos pastores parecia simples. A política, entretanto, tem o inconveniente hábito de não obedecer às planilhas.
Segundo o relato de Spyer, Silas Malafaia manifestou reservas à escolha de Flávio e defendeu Tarcísio. Outros dirigentes também demonstraram preocupação com os rumos da candidatura. Havia, portanto, uma diferença entre a avaliação eleitoral de parte das lideranças e a identificação de uma parcela dos fiéis com o sobrenome Bolsonaro.
Eis uma situação que merece ser observada sem pressa: o pastor faz suas contas, avalia os candidatos, pondera os riscos. O fiel, sentado no banco da igreja, pode estar fazendo outra conta. E não necessariamente consulta o pastor antes de chegar ao resultado.
Na política, como na vida familiar, nem sempre quem fala mais alto é quem dá a última palavra.
Spyer relata que, à medida que Flávio se consolidou como nome da direita bolsonarista, as lideranças evangélicas passaram a se aproximar de sua candidatura. O episódio sugere uma combinação de pragmatismo político, pressão da base e preocupação com a influência que essas lideranças poderiam preservar junto a um eventual governo.
Não é preciso imaginar conspirações para perceber a ironia. Quem está acostumado a orientar os outros também precisa aprender a mudar de posição quando as circunstâncias mudam.
O púlpito, afinal, não é uma torre de controle.
Talvez tenhamos exagerado a capacidade dos pastores de determinar o voto evangélico. Durante muito tempo, pareceu conveniente imaginar milhões de eleitores como um rebanho que se desloca ao simples movimento do cajado. Para os políticos, seria uma facilidade extraordinária: conquistar o dirigente, receber a bênção e aguardar os votos.
Mas gente não vem em pacote.
O fiel pode respeitar o pastor e discordar de sua preferência eleitoral. Pode compartilhar a mesma fé sem compartilhar o mesmo candidato. Pode ouvir o sermão no domingo e, na cabine de votação, seguir a própria consciência.
A fé não elimina a teimosia humana. Se eliminasse, os casamentos seriam mais simples, as famílias discutiriam menos e as eleições talvez nem precisassem de campanha.
Há, no episódio descrito por Spyer, uma inversão interessante. Os políticos procuram os pastores porque acreditam que eles podem influenciar os fiéis. Mas, quando a preferência da congregação não coincide com a avaliação do dirigente, o movimento pode acontecer na direção contrária: é o pastor quem precisa prestar atenção ao que os fiéis desejam.
O rebanho também tem suas opiniões. E, às vezes, faz questão de demonstrá-las.
Isso não significa que os líderes religiosos tenham perdido sua influência, nem que os evangélicos pensem todos da mesma maneira. Significa apenas que a relação entre fé e política não cabe numa fotografia de palanque, com todos sorrindo na mesma direção.
O problema começa quando essa fotografia pretende valer como procuração divina.
Pastores têm todo o direito de defender candidatos. Podem participar do debate público, criticar governos e expressar suas convicções. Mas há uma diferença entre recomendar um político e sugerir que sua candidatura recebeu uma autorização especial dos céus.
Uma coisa é dizer: “Acredito que este candidato seja o melhor”. Outra é insinuar: “Deus já escolheu; agora é a sua vez de obedecer”.
A primeira frase abre uma conversa. A segunda tenta encerrá-la.
E convenhamos: há políticos que já encontram dificuldade suficiente para explicar suas próprias decisões. Atribuir-lhes também a responsabilidade de representar a vontade divina é uma tarefa que nem o mais entusiasmado cabo eleitoral deveria assumir.
O curioso é que, no fim, a política costuma revelar aquilo que os discursos procuram esconder: os interesses humanos, as conveniências, as dúvidas e as mudanças de rumo. Alianças que parecem eternas precisam ser revistas. Convicções proclamadas com solenidade convivem com cálculos bastante terrenos.
Não há novidade nisso. A novidade é imaginar que, quando a religião entra em cena, os homens deixam de ser homens.
Talvez seja esse o ponto que mais me interessa no episódio. Não a preferência por Tarcísio ou por Flávio em si, mas a constatação de que nem mesmo uma liderança espiritual consegue controlar inteiramente a vontade de quem a escuta. O poder de aconselhar não é o poder de decidir pelo outro.
No fim, o político pede votos, o pastor oferece sua orientação e o fiel faz o que lhe parece correto. Pelo menos é assim que deveria funcionar numa democracia em que a consciência não tem dono.
Deus, felizmente, não precisa justificar alianças, explicar mudanças de posição ou responder a pesquisas eleitorais. Os homens, por sua vez, têm o hábito de invocá-lo justamente quando precisam dar às próprias escolhas uma autoridade maior do que a sua.
Resta uma pequena pergunta, dessas que não exigem resposta do céu: se até os pastores precisam ouvir os fiéis para decidir o caminho, por que tantos políticos insistem em acreditar que podem falar por todos?
Deus não vota. O pastor não vota pelo rebanho. E o candidato, por mais que invoque os céus, ainda precisa convencer quem vive aqui embaixo.
Palmarí H. de Lucena