Toda eleição tem seus personagens. Há o candidato que chega com a bandeira de uma causa, o que chega com uma história de vida, o que chega com um partido e aquele que chega com uma profissão.
Professor. Médico. Delegado. Militar. Empresário. Agricultor. Advogado. Servidor público.
Está tudo bem. Ninguém chega à política sem ter vindo de algum lugar. A profissão conta uma história, ajuda a formar uma reputação e pode explicar por que determinada pessoa resolveu disputar uma eleição. Em muitos casos, é justamente a experiência acumulada ao longo de uma carreira que leva alguém a querer participar da vida pública.
O problema começa quando a história passa a comandar o mandato.
O professor conhece a escola. O médico conhece o hospital. O agricultor conhece o campo. O empresário conhece a empresa. Quem veio da segurança conhece os problemas da segurança. É bom que esse conhecimento chegue à política. As instituições públicas se beneficiam da experiência de quem conhece a realidade fora dos gabinetes.
Só há uma pequena diferença: depois da eleição, o eleitorado aumenta.
Quem durante a campanha falava principalmente com sua categoria passa a representar também pessoas que nunca estiveram naquele ambiente profissional. A urna não separa votos por profissão, classe ou atividade. Junta todos.
Talvez seja essa uma das suas maiores virtudes.
Por isso chama atenção o hábito de transformar profissão ou função em nome eleitoral. Não há, necessariamente, nada de inadequado nisso. Se é assim que o eleitor reconhece alguém, o título pode ser apenas uma forma legítima de identificação.
Mas existe uma fronteira.
Quando o título serve para dizer quem é o candidato, cumpre uma função. Quando passa a sugerir que aquela profissão, por si só, o torna mais merecedor do voto, transforma-se em argumento de autoridade.
Um diploma é prova de formação. Uma patente é parte de uma carreira. Um cargo anterior é experiência. Nenhum deles vem acompanhado de votos.
A questão fica mais delicada quando a profissão está ligada a uma função de Estado.
O caso dos militares é ilustrativo. Militares são cidadãos e, portanto, têm legítimo direito à participação na vida pública, observadas as regras próprias de sua carreira. A reflexão é outra: quando alguém opta por um mandato eletivo, é razoável discutir se deve existir uma separação clara entre a autoridade política recebida das urnas e a autoridade funcional associada à carreira de origem.
Não se trata de desqualificar militares, nem de estabelecer uma regra para uma categoria específica. Trata-se de discutir, de forma institucional e sem partidarismo, como preservar a distinção entre diferentes papéis públicos. A autoridade de uma função não é a mesma coisa que a autoridade conferida pelo voto.
O princípio pode ser observado, em diferentes graus, em outras profissões. O médico pode defender a saúde sem representar apenas os médicos. O professor pode lutar pela educação sem falar somente pelos professores. O empresário pode defender a atividade econômica sem esquecer quem nunca teve uma empresa.
A experiência permanece. A responsabilidade se amplia.
É aí que talvez esteja o verdadeiro desafio. O candidato chega à política carregando sua identidade profissional, mas o eleito precisa ser capaz de enxergar além dela. Não precisa negar aquilo que foi; precisa evitar que aquilo que foi determine sozinho aquilo que fará.
Essa não é uma questão de direita ou esquerda, governo ou oposição. Pode ser discutida por qualquer partido, categoria ou corrente de pensamento. Afinal, antes de ser uma disputa ideológica, é uma questão de representação: depois que os votos são contados, a quem pertence o mandato?
Ao partido? À profissão? À categoria que apoiou o candidato? Ou ao conjunto dos cidadãos?
A resposta, em uma democracia representativa, é o povo.
Isso não significa que o eleito deva abandonar suas convicções ou deixar de defender temas relacionados à sua experiência. Significa apenas que seus interesses particulares, profissionais ou corporativos não podem ser confundidos automaticamente com o interesse público.
Talvez seja por isso que o velho crachá mereça um lugar mais discreto depois da eleição. Não precisa ser descartado. Faz parte da história de quem o usou e, muitas vezes, representa uma trajetória de trabalho da qual se pode ter orgulho.
Mas já não deve ocupar o lugar do mandato.
Na porta do gabinete, talvez bastasse uma identificação:
REPRESENTANTE DO POVO.
Sem profissão, patente ou categoria.
Não porque essas identidades deixem de importar, mas porque, depois da urna, nenhuma delas é maior do que a responsabilidade de representar quem votou — e também quem não votou naquele candidato.
No fim das contas, a eleição não apaga o currículo de ninguém.
Apenas transforma o currículo em responsabilidade pública.
Palmarí H. de Lucena