Depoimento de WJ Solha sobre meu pai, Tenente Lucena

Photo by Palmarí de Lucena
Depoimento de WJ Solha sobre meu pai, Tenente Lucena

Como naqueles filmes em que o mesmo ator interpreta tanto o pai quanto o filho, atravessando gerações, ergui os olhos do trabalho no Banco do Brasil e me deparei com o Tenente Lucena redivivo, rejuvenescido à minha frente.

— Você é filho do Tenente Lucena! — deixei escapar, entre surpresa e saudade.

— Sou. Você é o Solha, não é?

— Sim.

— Meu nome é Piragibe.

A semelhança era desconcertante. Piragibe parecia carregar não só o rosto do pai, mas também seu espírito.

— Meu Deus, como você se parece com seu pai! — repeti, comovido.

Com a mesma doçura que eu lembrava do Tenente, Piragibe revelou o motivo da visita:

— Meu pai falava muito de você. Eu ficaria muito grato se pudesse escrever um depoimento para o livro que fiz sobre ele.

Havia uma ternura, um amor, uma veneração em sua voz. Qualidade rara de se ver nos dias de hoje, onde o afeto parece sempre filtrado pela pressa e pela amargura. Senti-me transportado para outro tempo, talvez outra vida.

Sou um sujeito desiludido, fechado e seco. Talvez por isso mesmo tenha uma reverência silenciosa por aqueles que irradiam o oposto. Lembrei-me de uma vez, espiando de longe o Luiz Carlos brincando com as crianças no esqueleto do Circo Piolin, atrás da igreja matriz, aqui em João Pessoa. A cena me trouxe à memória o São Francisco do mural que pintei na fachada de minha casa, pregando ao Sol, aos Peixes e aos Pássaros.

A lembrança então me levou aos intervalos das filmagens de “O Salário da Morte”, em 1970, lá em Pombal. O Tenente Lucena, homem forte e sanguíneo, após viver o chefe do Sindicato do Crime nas câmeras, se transformava no terreiro, brincando com os “meninos da caatinga”. E eu, carrancudo, talvez absorvendo demais o papel de pistoleiro, só observava.

— O senhor é uma figura — eu disse, quando ele se sentou ao meu lado no batente, suando muito.

— Sou doido por crianças! — respondeu, com a simplicidade que só os puros possuem.

Pensei alto, de volta ao presente:

— Imagino que infância feliz o velho deve ter dado a vocês, filhos dele.

Piragibe sorriu. Seu sorriso era um eco do pai, um reflexo do que o Tenente havia sido. E me vi, mais uma vez, cercado pela estranha ironia da ficção, que sempre tenta casar aparência com essência.

No cinema, Miguel Ângelo foi interpretado pelo majestoso Charlton Heston, que também viveu Moisés pela semelhança física com as esculturas de Buonarroti. Mas Miguel Ângelo não era nada daquilo. E o Tenente Lucena também não era o tirano de “O Salário da Morte”. No curta “A Canga”, que filmei em Super-8, o retratei ainda pior. Um pai brutal, o avesso do ator.

O Tenente, no meu filme, era duro, odiado. Chicoteava-me e ao meu irmão mentalmente retardado, manobrando o arado na terra estéril, enquanto minha mãe e minha mulher grávida observavam. Ele fazia tudo aquilo brincando, sempre com a leveza de quem apenas joga um jogo.

Até que chegou a cena do Deputado no Opala reluzente. A cada nova tomada, eu insistia:

— Não é assim, Tenente! Olhe para o carro do Deputado com… ódio! Vamos de novo!

A expressão serena foi se desfazendo. A cada “Corta!”, o bonachão desaparecia. Até que, na décima tentativa, rubro de raiva, ele berrou:

— Trabalhar!

A cena ficou fabulosa, mas ele nunca viu o resultado. Prometi mil vezes sonorizar “A Canga” e nunca o fiz. Se tivesse tido a chance de atuar em uma obra de maior projeção, Lucena teria brilhado como Jofre Soares ou Zé Dumont. Que expressão, que força escondida sob aquela alegria!

— Eu gostava muito de seu pai — confessei a Piragibe. — Todo mundo gostava.

As forças naturais me fascinam. A criação espontânea, sem sofrimento, como a do Lucena entre as crianças. Mas, ah, como eu queria criar brincando! Descansar um pouco! Envolver-me com as pessoas, como ele fazia. Não as envenenar com meu olhar analítico, mas apenas vê-las felizes.

Se eu acreditasse no céu, o Lucena já estaria lá.

*Texto baseado no depoimento de WJ Solha no livro Ten Lucena, de Piragibe Lucena

Palma’ri H. de Lucena