De Jaguaribe ao Mundo — Sempre João Pessoa

Photo by Palmarí H. de Lucena
De Jaguaribe ao Mundo — Sempre João Pessoa

Nasci e cresci em João Pessoa, no bairro de Jaguaribe, para ser exato. Seu nome — João Pessoa — era o único que eu conhecia, sempre presente nas canções, nos hinos e nas conversas de casa e escola. Mas, no fundo, eu sabia que aquele não fora o primeiro nome dessa terra. Enquanto entoávamos o hino da cidade, aprendíamos que, antes de sermos João Pessoa, éramos Filipeia de Nossa Senhora das Neves — nome antigo, dado em 1585, quando o reino de Portugal estava sob a coroa do rei Filipe II de Espanha, e a devoção à padroeira Nossa Senhora das Neves era a alma da cidade nascente.

Mais tarde, a cidade ganhou o nome de Parahyba do Norte, em referência ao rio Paraíba que a abraça, distinguindo-a da Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. Esses nomes faziam parte da história que carregávamos silenciosa, herança dos tempos coloniais e imperiais, quando a cidade ainda vivia sob o olhar dos colonizadores e dos senhores do poder.

João Pessoa, porém, o nome que hoje conhecemos e pronunciamos com orgulho, guarda um significado especial. Ele homenageia um homem que deu a vida por sua terra, tornando-se símbolo de resistência e esperança em tempos difíceis. Assim, na memória e no presente, a cidade segue viva, entrelaçando passado e futuro em cada rua, em cada esquina.

Foi nesse espírito que nos ensinaram no Grupo Escolar Antônio Pessoa, onde cantamos durante toda a juventude:

“Salve a cidade santa,
Filha da Paraíba,
Que em sua alma encanta
O lirismo da vida!”

Vivi quatro décadas longe dela, distante da rua tranquila, do fiteiro do Seu João, da marinete do Seu Rabelo, da solene festa do aniversário de João Pessoa, da Cruzada da Igreja do Rosário, do Frei Albino, do Círculo Operário do Seu Odilon, das aventuras no escotismo, dos passeios pelo porto do Capim e das viagens emocionantes nos trens da Great Western. Eram nossas balizas, pontos fixos em um mundo em transformação. Neles aprendemos valores essenciais: solidariedade, companheirismo, coragem.

Na minha jornada, foram as professoras que abriram o mundo para mim. Dona Noemi Fialho Marinho, com suas aulas de história e geografia, fez meus olhos enxergarem além do horizonte, ensinando que o mundo é vasto e cheio de histórias que nos conectam. Dona Daura, com a disciplina rigorosa da matemática, revelou os mistérios dos números, despertando em mim o fascínio pelo raciocínio e pela lógica.

E a música? Ah, essa vinha do som que Juarez Johnson e meu pai, Tenente Lucena, colocavam no ar — notas que aguçaram meu ouvido e meu apetite pela arte. Foi o domínio da língua inglesa que abriu ainda mais portas, permitindo que eu navegasse por culturas distantes e levasse comigo a semente do saber.

Levei todos esses símbolos — mais um frasco de Água Rabelo e duas garrafas de vinho Celeste — na mala quando parti para os Estados Unidos. Ao voltar, eles ainda estavam comigo, mais maduros, um pouco mais sofisticados, mas sempre presentes no meu coração. João Pessoa era, é, e sempre será minha terra — a raiz onde meu coração repousa e onde hoje, mais uma vez, celebro seu aniversário.

Este dia não é apenas uma festa de ruas e fogos, mas um reencontro com a história que me formou, com as memórias que me sustentam e com as pessoas que fizeram de mim quem sou. Comemorar o aniversário de João Pessoa é celebrar a vida que pulsa nesta cidade, feita de passado e futuro, de sonhos e realizações.

Sou um homem em movimento, sempre espalhando cultura e sabedoria, mas sempre voltando ao meu porto seguro: João Pessoa.

Com a gratidão do seu filho, Palmarí H. de Lucena