De Iowa a Itaporanga: quando a música morre, mas não se cala

De Iowa a Itaporanga: quando a música morre, mas não se cala

A meteorologista da CNN anunciava tempestade. Frio cortante nas ruas de Nova Iorque. Nas calçadas, multidões carregavam sacolas, dívidas e pressa. Um quarteto de metais arriscava notas natalinas: “We wish you a Merry Christmas and a Happy New York”. Ambulantes exibiam bugigangas “I♥NY”, made in China. Era o caos típico da cidade, mas nós escapamos para o abrigo da Virgin Megastore, então a maior loja de música do Leste americano.

Ali, no meio da avalanche de novidades, um achado improvável: Quinteto Brassil plays Brazil. Composições do Maestro Duda interpretadas por professores da UFPB. Em meio à nevasca, descobrimos um pedaço de Nordeste no coração de Manhattan. Na cabine de som, ouvimos as faixas como quem encontra refúgio. Compramos doze exemplares, presentes para amigos. O curioso é que aquele disco, gravado por brasileiros, não estava disponível no Brasil. Era como uma dádiva que o exílio oferecia.

Anos depois, já em Cabo Branco, o cenário mudava: noite quente, amigos reunidos, Sivuca de volta à Paraíba. E lá estava ele, Radegundis Feitosa, gargalhada farta, trombone em punho, olhos semicerrados. A embocadura tranquila escondia o virtuosismo do músico. Naquele encontro nasceu nossa amizade. Vieram depois Helsinque, Nova Iorque, Ithaca — e o 33º Festival Internacional do Trombone.

Lembro-me de uma noite em Manhattan. Entre jazz, vinho e tagliatelle Alfredo, surgiu a ideia de uma “canja” na Broadway. Oito músicos paraibanos invadiram o clube Smoke com Aquarela do Brasil. O público, boquiaberto, pedia: “One more time”. Outro clube quis ouvir. Outra vez. Os sons nordestinos ecoavam pela cidade que nunca dorme.

Essa trajetória não parou em Nova Iorque. Seguiu no Teatro Santa Rosa, no primeiro DVD de Sivuca, e mais tarde em partituras lançadas como homenagem póstuma. Radegundis era professor, maestro, orador reticente. Mas antes de tudo, paraibano. Como meu pai, Tenente Lucena, outro trombonista, outro filho das filarmônicas, que acreditava na força da música como destino e vocação.

Mas toda epopeia cultural tem o seu silêncio abrupto. Para os Estados Unidos, esse silêncio veio em 1959, numa madrugada gelada em Iowa, quando Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Bopper embarcaram no voo que não chegou ao destino. O rádio anunciou: “a música morreu”. Don McLean transformou o trauma em hino — American Pie — lembrando que a vida pode ser interrompida como um disco que para de girar.

A Paraíba teve o seu próprio Day the Music Died. Não em um avião no meio-oeste americano, mas na curva de uma estrada interiorana. Radegundis Feitosa, Roberto Ângelo Sabino, Adenilton Soares França e o cantor Luís Benedito partiram juntos, em pleno vigor artístico. Como no episódio americano, não era apenas a perda de músicos: era o fim repentino de um ciclo de criação, a sensação de que o futuro fora interrompido.

Há imagens que se espelham: a neve cobrindo destroços no campo de Iowa, e a poeira vermelha da Paraíba cobrindo instrumentos que jamais soariam outra vez. Nos dois casos, não foi apenas a tragédia, mas a consciência coletiva de que algo maior havia sido arrancado da cultura.

Se a América chorou quando o céu se fechou sobre o rock, nós choramos quando a estrada calou os metais de nosso chão. E, como lá, transformamos a ausência em mito. Porque a música não morre: ela se transmuta em lembrança, em saudade, em legado. O silêncio das trombetas paraibanas continua a ecoar, como o refrão eterno de uma canção que pede: “One more time”.

E talvez seja este o elo invisível entre Iowa e Itaporanga: dois funerais separados por continentes e décadas, mas unidos pela mesma constatação de que a arte pode ser mortal no corpo, mas é imortal no espírito. Lá, o rock perdeu sua inocência; aqui, o frevo, o jazz e a música de sopro perderam seus arautos. Mas em ambos os casos, o luto transformou-se em mito, e o mito em permanência. Porque, apesar do silêncio, seguimos todos ouvindo a música que jamais deixou de tocar.

Por Palmarí H. de Lucena