De Hollywood a Miami: a geografia da fuga

De Hollywood a Miami: a geografia da fuga

Houve um tempo em que fugir da Justiça exigia uma mala, dinheiro vivo e um mapa-múndi aberto sobre a mesa. Nos antigos filmes policiais de Hollywood, quando a prisão parecia inevitável, o criminoso ainda podia imaginar uma saída romântica: atravessar o oceano. Não raro, o destino era o Brasil.

O Rio de Janeiro surgia como promessa. Havia o mar, as montanhas, o calor, a multidão e, sobretudo, a distância. Para quem fugia, o Atlântico parecia uma cortina capaz de separar o passado do presente. Embarcava-se de um lado do mundo e desembarcava-se no outro, na esperança de que os perseguidores não alcançassem o novo endereço.

Em 1952, o filme The Steel Trap transformou essa fantasia em enredo. O protagonista, interpretado por Joseph Cotten, planeja roubar um milhão de dólares e fugir com a família para o Rio. Acredita que uma brecha jurídica poderá ajudá-lo, mas imprevistos e a própria consciência convertem o dinheiro, suposta chave da liberdade, em fonte de angústia.

A vida real não precisou de roteiristas para produzir uma história que lembrasse esse imaginário. Um de seus personagens foi Ronnie Biggs.

Em 1963, Biggs participou do Grande Roubo do Trem Pagador, na Inglaterra. Condenado a trinta anos de prisão, fugiu de Wandsworth, em Londres, em 1965. Depois de passar por outros países, chegou ao Rio de Janeiro em 1970. Ali viveu durante décadas, enquanto seu nome continuava a despertar a curiosidade dos jornais britânicos.

Biggs parecia ter atravessado a tela para continuar representando o próprio papel. O Rio tornou-se o cenário de uma segunda vida, e o fugitivo, uma celebridade improvável. Recebia jornalistas e parecia ter encontrado, entre o mar e as montanhas, uma distância confortável da prisão. Havia nisso uma ironia: embora longe da cela, acabou preso à própria fama.

Em 2001, regressou voluntariamente ao Reino Unido e voltou à prisão. Sua história lembrava que a distância pode prolongar uma aventura, mas não garante que ela dure para sempre.

O tempo passou. Os navios cederam espaço aos aviões a jato, as comunicações encurtaram as distâncias e o mundo começou a caber na palma da mão. A geografia da fuga adquiriu outros contornos. Para compreender essa mudança, basta olhar para o norte, em direção à Flórida.

Miami.

A palavra tem algo de cinematográfico: palmeiras, avenidas largas, edifícios envidraçados e marinas. Mas há também uma Miami menos visível nos cartões-postais: a cidade que conecta negócios, famílias e interesses latino-americanos. De Bogotá, Caracas, Cidade do Panamá ou São Paulo, é possível chegar a um lugar de idiomas familiares, relações comerciais e serviços internacionais.

O Rio associado à história de Ronnie Biggs representava a distância. Miami, em muitas narrativas contemporâneas, representa a proximidade. Em vez de desaparecer num país remoto, alguém pode manter contatos, patrimônio e negócios enquanto vive sob outra jurisdição. Quando existe uma tentativa de escapar da Justiça, ela nem sempre assume a forma de um desaparecimento; pode se confundir com uma mudança de residência. A mudança de país, por si só, contudo, não prova intenção ilícita.

Essa transformação aproxima Miami dos antigos roteiros de Hollywood. Pessoas com recursos podem contratar advogados, administrar patrimônio e contestar pedidos de extradição a partir do exterior. Esses atos, considerados isoladamente, são legais. A combinação de dinheiro, mobilidade e sistemas jurídicos distintos ajuda, porém, a explicar por que algumas disputas judiciais atravessam fronteiras.

Um exemplo dessa geografia internacional foi o escândalo de corrupção no futebol revelado em 2015. Naquele ano, autoridades dos Estados Unidos anunciaram acusações contra dirigentes esportivos e executivos de empresas de marketing por supostos esquemas de suborno, fraude e lavagem de dinheiro ligados, entre outros aspectos, a direitos de mídia e marketing de competições. As acusações não significavam que todos os envolvidos tivessem o mesmo papel ou o mesmo desfecho judicial.

Outros processos também mostram como patrimônio e investigações podem atravessar fronteiras. Carlos Pólit, ex-controlador-geral do Equador, foi condenado em Miami, em 2024, por crimes relacionados a suborno e lavagem de dinheiro. No Brasil, José Carlos Grubisich, ex-presidente-executivo da Braskem, declarou-se culpado nos Estados Unidos, em 2021, por crimes relacionados a suborno e falsificação de registros empresariais; foi condenado a vinte meses de prisão.

Em 2017, José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, foi condenado nos Estados Unidos por crimes relacionados ao esquema. O caso mostra como investigações financeiras podem atravessar países, empresas e federações — e como a cooperação internacional pode transformar operações dispersas em processos judiciais. A referência à FIFA não significa que toda a organização ou todos os seus integrantes tenham participado de práticas criminosas: os casos envolvem pessoas e empresas específicas, com situações jurídicas distintas.

Esses processos não devem ser tratados como se fossem idênticos. Há diferenças entre condenações, declarações de culpa e acusações, assim como entre o papel de um governante, de um familiar, de um dirigente esportivo ou de um intermediário empresarial. O ponto de contato, quando demonstrado pelas provas de cada caso, está na dificuldade de acompanhar o caminho do dinheiro quando ele atravessa fronteiras e passa por empresas, contas e bens registrados em nome de terceiros.

Mudou não apenas o destino, mas a maneira de estar longe. O fugitivo de antigamente procurava desaparecer; o personagem contemporâneo pode conservar patrimônio, relações e padrão de vida enquanto uma disputa judicial prossegue em outro país. Miami é um cenário sugestivo não porque seja uma cidade de fugitivos, mas porque reúne duas faces da mobilidade internacional: a liberdade de quem busca trabalho, segurança ou uma vida melhor e a possibilidade de que a circulação entre países seja usada para dificultar consequências judiciais.

O Rio da história de Ronnie Biggs e a Miami contemporânea não são esconderijos equivalentes. O primeiro pertence à fuga individual de um homem; a segunda aparece em narrativas mais amplas, nas quais dinheiro, poder, imigração e cooperação judicial se encontram. A distância já não garante anonimato, mas ainda pode influenciar o curso de uma história.

É necessário distinguir acusação de condenação, sanção de sentença e exílio político de fuga da Justiça. Nem todo governante que vive no exterior é fugitivo; nem toda pessoa investigada é culpada; e mudar de país não comprova, por si, a intenção de escapar das autoridades. A comparação é útil menos para igualar personagens do que para observar como poder, dinheiro e mobilidade atravessam fronteiras.

Nenhuma cidade, porém, pode ser definida apenas pelos personagens que chegam até ela. O Rio não se tornou uma terra de fugitivos porque Ronnie Biggs viveu ali. Miami tampouco pode ser reduzida aos estrangeiros que enfrentam acusações ou controvérsias judiciais. As cidades são maiores do que suas histórias mais rumorosas.

Nos filmes antigos, a câmera acompanhava o fugitivo até a janela do avião. A música crescia, o horizonte se abria e o espectador ficava livre para imaginar o resto. Na vida real, há provas, processos, decisões, recursos e longos períodos de espera. Alguns casos terminam em extradição; outros, em absolvição, arquivamento ou condenação. A história não obedece ao roteiro.

Ontem, Hollywood apontava para o Brasil. Ronnie Biggs transformou essa imagem numa experiência concreta. Hoje, parte do imaginário da fuga se volta para Miami. Amanhã, talvez o cenário seja outra cidade, em outro continente, sob outro céu.

O mundo continuará a oferecer destinos a quem deseja começar de novo. Para a maioria, partir significa procurar trabalho, segurança, liberdade ou uma vida melhor. Em outros casos, a mudança de país pode integrar uma estratégia para evitar um julgamento ou preservar patrimônio. A diferença não está no destino, mas nas razões da partida e nas circunstâncias demonstráveis de cada caso.

Talvez a verdadeira fronteira nunca tenha sido o Atlântico, nem a distância entre Londres e o Rio, nem a ponte aérea entre a América Latina e a Flórida. Talvez esteja no intervalo entre aquilo que uma pessoa consegue deixar para trás e aquilo de que não pode se desvincular.

No cinema, a fuga termina quando a tela escurece. Na vida real, o avião pousa, a mala é aberta e começa outro capítulo. O destino pode mudar. O passado, não necessariamente. E a Justiça, como o horizonte visto da janela de um avião, pode parecer distante durante muito tempo. Isso não significa que tenha desaparecido.

Palmarí H. de Lucena