Venho de chapéu na mão para falar de Ramalho Leite. Não é gesto de reverência exagerada, dessas que obrigam o homenageado a ficar procurando, atrás de si, a pessoa realmente importante da cerimônia. É apenas uma precaução. Quem fala de um escritor que passou boa parte da vida observando pessoas — especialmente pessoas da política — deve tomar algum cuidado. Enquanto a gente fala dele, ele pode estar, muito discretamente, preparando uma história sobre a gente.
Ramalho conhece a matéria-prima. Conheceu a política por dentro, seus plenários, corredores, discursos, promessas e personagens. E personagem é o que nunca faltou à vida pública. Há os que entram numa sala carregando uma importância tão grande que quase precisam de ajuda para transportá-la; há os que mudam de opinião com a serenidade de quem apenas trocou de gravata; e há aqueles que falam para a História quando, às vezes, bastava falar para os presentes.
Ramalho observava. Ouvia. Guardava.
Depois, escrevia.
A política paraibana lhe ofereceu um repertório generoso, e ele soube transformar essa matéria em crônica, memória e humor. Não era necessário inventar muito. A realidade, quando bem observada, costuma ter imaginação suficiente. O próprio Ramalho resolveu a questão numa frase que deveria tranquilizar alguns personagens e preocupar outros: “Eu acrescento, mas não invento.”
A diferença não é pequena. Inventar é criar aquilo que não aconteceu. Acrescentar é reconhecer que certos acontecimentos chegam à memória ainda precisando de uma boa iluminação. O fato permanece; o cronista apenas lhe mostra um ângulo que talvez tivesse passado despercebido. E, nesse trabalho, Ramalho soube fazer do humor uma forma de inteligência, sem transformar a graça em grosseria ou a crítica em simples pancada.
É assim que aparecem os personagens de seus livros: homens públicos, figuras conhecidas, autoridades, amigos, adversários e criaturas que talvez preferissem não ter feito determinadas coisas diante de alguém com tão boa memória. Em Em Prosa e Verso – Mais Histórias do Folclore Político da Paraíba e em O Poder do Bom Humor, a política deixa por alguns instantes o peso dos cargos e entra no terreno mais democrático da condição humana, onde ninguém está inteiramente protegido do ridículo e todos, em alguma circunstância, podem render uma boa história.
E há ainda um título que parece resumir, com elegância e travessura, uma de suas maneiras de conversar com o leitor: Pequenas histórias para quem tem preguiça de ler as grandes. É difícil resistir a um convite desses. Afinal, nem toda história precisa ter o tamanho de um romance russo para contar alguma coisa sobre a vida. Algumas cabem numa conversa de corredor, numa frase mal calculada, num gesto involuntário ou numa promessa feita com tanta segurança que o tempo, mais tarde, se encarrega de lhe acrescentar o humor.
Talvez Ramalho tenha compreendido que o leitor moderno — e mesmo o antigo, quando está cansado — não precisa ser castigado para aprender alguma coisa. Uma pequena história pode carregar uma vida inteira. Pode ser breve e deixar pensamento para vários dias. Pode provocar o riso e, depois, deixar aquela dúvida desagradável: será que eu conheço alguém assim? Ou, pior ainda, será que esse alguém sou eu?
Agora, pela terceira vez, Ramalho Leite é chamado a presidir a Academia Paraibana de Letras. A notícia tem sua própria graça literária. Depois de tantos anos observando personagens da política, encontra-se à frente de uma casa onde as palavras são levadas muito a sério e onde, naturalmente, os personagens também não faltam.
Uma Academia de Letras é uma instituição respeitável. Reúne escritores, poetas, historiadores, jornalistas e estudiosos, todos ligados por essa estranha e admirável profissão de fé nas palavras. É um lugar onde uma vírgula pode ter importância, uma memória pode atravessar gerações e uma boa conversa, dependendo dos participantes, pode sobreviver por muito tempo à própria reunião.
Ramalho retorna à presidência sem precisar que lhe levantem uma estátua verbal. Aliás, seria um risco. Estátuas são silenciosas, e Ramalho pertence ao território das histórias, onde o silêncio só interessa quando ajuda a preparar uma boa frase. A terceira escolha para conduzir a Academia fala por si, com a sobriedade que os fatos costumam ter quando não são sufocados por adjetivos.
Há nele o escritor que conhece a força das palavras, mas não se deixa dominar pela solenidade delas. Há também o observador que aprendeu que os homens, mesmo quando ocupam cargos importantes ou vestem as melhores roupas para uma cerimônia, continuam sendo homens: com suas vaidades, suas certezas provisórias, suas distrações e suas inesperadas vocações para o humor.
É por isso que venho de chapéu na mão. Venho com consideração pelo escritor, pelo acadêmico e pelo homem que encontrou na experiência uma fonte permanente de literatura. Mas venho também sem bajulação, porque a bajulação tem pouca serventia diante de quem conhece tão bem os bastidores da natureza humana. Melhor falar com simplicidade.
Ramalho Leite continua escrevendo, observando e recolhendo da vida aquilo que ela oferece a quem tem olhos atentos. Agora, pela terceira vez, preside a Academia Paraibana de Letras, cercado por livros, ideias e pessoas — combinação que, em boas mãos, pode produzir cultura e, em mãos literariamente curiosas, também excelentes histórias.
Quanto aos confrades, amigos e demais frequentadores das conversas em que Ramalho esteja presente, não há motivo para preocupação excessiva.
Basta falar naturalmente.
E, se alguma frase escapar, algum gesto se tornar memorável ou alguma solenidade revelar seu lado involuntariamente engraçado, convém lembrar a defesa que o próprio escritor já deixou preparada.
Ele não inventa.
Apenas acrescenta.
Palmarí H. de Lucena