Há momentos em que a política externa deixa de ser apenas estratégia e se transforma em narrativa. A recente movimentação da Casa Branca em torno de Cuba parece caminhar nessa direção. Após intervenções decisivas no Irã e na Venezuela, o presidente Donald Trump insinua que a ilha caribenha pode ser o próximo capítulo de uma sequência que ele próprio descreve, com notável autoconfiança, como uma série de acertos históricos.
Cuba nunca foi apenas um problema diplomático para os Estados Unidos. Foi trauma, foi símbolo, foi desafio ideológico. Desde 1959, a permanência do regime instaurado por Fidel Castro representou, para Washington, uma anomalia geográfica e política: um governo socialista a poucas milhas da Flórida, sobrevivendo a embargos, pressões econômicas, operações clandestinas e tentativas de isolamento internacional. A Baía dos Porcos tornou-se sinônimo de fracasso estratégico; a crise dos mísseis, de beira do abismo nuclear. Cada geração de presidentes americanos herdou esse dossiê incompleto.
O que diferencia o momento atual é a confluência de fragilidades. A economia cubana atravessa um de seus períodos mais críticos desde o fim do apoio soviético. A pandemia aprofundou a escassez de alimentos, energia e medicamentos. A Venezuela, outrora sustentáculo energético da ilha, enfrenta suas próprias limitações. A Rússia, absorvida por conflitos e sanções, tem capacidade reduzida de socorro. O regime permanece coeso no controle político, mas a sociedade vive crescente exaustão material.
É nesse cenário que a administração Trump avalia alternativas que vão da intensificação de sanções a negociações de alto nível, passando por pressões indiretas de isolamento marítimo e comercial. A retórica presidencial sugere a crença de que o regime estaria corroído por dentro, bastando um empurrão externo para precipitar mudanças. Trata-se de uma leitura sedutora — e arriscada.
A experiência histórica recomenda cautela. Regimes autoritários, sobretudo aqueles com aparato de segurança consolidado, raramente se desfazem por mera pressão econômica. O embargo de mais de seis décadas não produziu a democratização pretendida; ao contrário, frequentemente reforçou a narrativa interna de cerco externo. O isolamento pode enfraquecer a economia, mas nem sempre dissolve a estrutura de poder.
Há também o fator migratório. Qualquer instabilidade abrupta em Cuba tende a repercutir diretamente no sul da Flórida. Um colapso desordenado poderia gerar fluxo de refugiados em escala difícil de administrar, justamente num momento em que Washington endurece políticas de imigração. A política externa, nesse caso, dialoga inevitavelmente com a política doméstica.
Do ponto de vista estratégico, o argumento de segurança nacional repousa na presença de instalações de inteligência russas e na acusação de vínculos com atores considerados hostis pelos EUA. Ainda assim, diferentemente do dossiê nuclear iraniano ou das acusações criminais que embasaram ações contra a liderança venezuelana, o caso cubano carece de um gatilho imediato e inequívoco. A ameaça é estrutural e histórica, não iminente.
Resta, portanto, o elemento simbólico — e político. Para Trump, Cuba oferece a possibilidade de completar um ciclo que atravessou governos democratas e republicanos. Resolver o “caso cubano” significaria inscrever seu nome numa linhagem de presidentes associados a marcos geopolíticos. A tentação do legado, na política internacional, é força poderosa.
Mas a história recente ensina que remover governos é tarefa menos complexa do que reconstruir instituições. O Oriente Médio oferece exemplos eloquentes. O Caribe, por sua vez, guarda memória própria de intervenções mal calibradas.
Cuba permanece um enigma geopolítico: próxima demais para ser ignorada, complexa demais para soluções simplistas. Entre a ambição de redesenhar mapas e a responsabilidade de evitar novos impasses, Washington caminha sobre terreno conhecido — e instável. O desafio não é apenas mudar um regime, mas compreender se a mudança desejada é viável, sustentável e, sobretudo, legítima aos olhos da própria sociedade cubana.
Por Palmarí H. de Lucena