Viajar pelos Bálcãs era entrar em um território onde a geografia parecia moldada pela história — e a história, por conflitos sucessivos. Ao longo de mais de dois mil anos, a região foi atravessada por impérios, guerras e fragmentações que deixaram marcas profundas na paisagem e nas pessoas. O termo “balcanização” não era ali uma abstração: era visível nas fronteiras, nos idiomas, nas tensões silenciosas.
Nossa travessia começou na então Iugoslávia, um mosaico de identidades reunidas sob um equilíbrio delicado. Sob a liderança de Tito, projetava estabilidade — mas havia algo no ar, uma sensação de que aquelas linhas no mapa eram mais frágeis do que pareciam.
Seguimos pela Sérvia em direção à Bulgária. A estrada rapidamente se revelou imprevisível. Caminhões pesados, tratores imensos e veículos antigos disputavam espaço em um asfalto irregular. As placas em cirílico transformavam a orientação em um exercício de intuição.
Parávamos com frequência para pedir informações. Os moradores, sempre solícitos, comunicavam-se por gestos que invertiam nossa lógica: um movimento lateral significava “sim”; um aceno vertical, “não”.
— Varvete naprovo!.
Siga em frente.
E seguimos.
Depois de horas errando, alcançamos Sofia já à noite. O Balkan Hotel parecia preso ao tempo — móveis gastos, cheiro persistente de cigarro, corredores silenciosos. Três mulheres idosas prepararam o quarto com um cuidado quase ritual. Ao final, um discreto blagodari, obrigado.
Nos dias seguintes, a cidade revelou suas camadas. Na Catedral Alexander Nevski, a luz dourada iluminava ícones centenários enquanto vozes ecoavam sob as cúpulas. No Teatro Nacional, nomes como Ghena Dimitrova despertavam orgulho imediato — a arte como identidade.
Deixamos a cidade rumo ao sul. Colinas verdes, aldeias pequenas, estradas sinuosas. Até que surgiu, ao longe, a Igreja de Boyana, com suas cúpulas refletindo o sol.
Foi ali que conhecemos Hassan — um pomak, mulçumano búlgaro, de humor rápido e inteligência afiada — que se tornou nosso guia improvável. Foi ele quem nos levou ao Vale das Rosas.
Ao amanhecer, o vale parecia respirar perfume. Mulheres colhiam flores com gestos precisos, quase coreografados. O ar era denso, quase palpável. Provamos licor e geleia de rosas — sabores delicados, persistentes, como a própria paisagem.
Seguimos então para o Mosteiro de Rila, entre montanhas e florestas densas. O caminho era envolto em neblina e pelo som constante da água descendo pelas encostas. O complexo surgia imponente, mas sereno — muralhas simples por fora, um interior vibrante de cores, arcadas e cúpulas douradas.
Ali, o silêncio tinha peso.
Entre afrescos e ícones iluminados por velas, o tempo parecia desacelerar. Um monge nos disse, com tranquilidade:
— As flores murcham, mas o aroma permanece.
A frase nos acompanhou.
Encerramos nossa passagem pela Bulgária em Ruse, às margens do Danúbio. Em um hotel quase vazio, um quarteto de jazz tocava para poucos ouvintes. Entre improvisos, reconhecemos uma melodia brasileira: Saudade da Bahia, cantada em búlgaro.
A música atravessava fronteiras, como nós.
Na Romênia, próximo a Drobeta-Turnu Severin, a estrada foi interrompida por uma caravana Romani. Carroças alinhadas, cores intensas, vozes tensas. Tentamos fotografar — fomos impedidos. Autoridades confiscaram nossas câmeras, destruíram os filmes.
— Eles não pertencem aqui — disseram.
Seguimos em silêncio.
Ao deixarmos a Romênia em direção à Sérvia, cruzamos a ponte das Portas de Ferro. Era noite. O Danúbio corria abaixo como um espelho fragmentado, refletindo a lua e o rumor constante das turbinas.
Do lado sérvio, um soldado emergiu da escuridão.
Jovem. Imóvel. Um cigarro pendendo dos lábios.
Fez sinal para pararmos.
Revistou documentos, abriu malas, examinou tudo com atenção lenta. Ao encontrar nosso tabaco americano, hesitou. Olhou para o próprio cigarro, lançou-o ao chão e, com um gesto breve, pediu um.
Oferecemos três carteiras.
Ele assentiu.
Por um instante, a tensão dissolveu-se em fumaça. A ponte deixou de ser apenas cimento e aço — tornou-se um espaço suspenso, onde o medo fez uma pausa.
E então seguimos.
Aquele gesto simples despertou uma lembrança distante.
O primeiro cigarro, fumado na adolescência, como quem veste uma máscara. A sensação ilusória de maturidade, de coragem. Como se a fumaça pudesse construir uma identidade.
Ali, na fronteira escura dos Bálcãs, ficou claro: aquela sensação nunca foi real — apenas compartilhada.
Já na Sérvia, a estrada se tornou ainda mais isolada. Sem encontrar hospedagem, seguimos em direção a Belgrado.
Até que veio o som.
O ar escapando dos pneus dianteiros.
Ficamos parados no escuro por horas, até que faróis surgiram ao longe. Uma caminhonete Lada. Quatro homens desceram — roupas gastas, cheiro de tabaco e álcool.
Examinaram o carro.
— Vulcan!
Sem explicações, levantaram o veículo com pedras, retiraram os pneus e nos levaram por estradas de terra até uma fazenda coletiva.
Ali, éramos novidade.
Dormimos ao lado de um estábulo, sob calor intenso.
Na manhã seguinte, fomos conduzidos ao refeitório, observados com curiosidade silenciosa. Logo depois, levados a um galpão decorado.
Um casamento.
Nossas câmeras reapareceram.
Sem planejamento, tornamo-nos fotógrafos oficiais da cerimônia.
Registramos tudo — sorrisos, brindes, música. Fomos acolhidos. Por um breve momento, pertencíamos àquele lugar.
No dia seguinte, novo convite: fotografar a formatura da escola local. O “fotógrafo internacional” já tinha reputação.
Sem alternativa, aceitamos.
Dois dias depois, o carro estava pronto. Pneus reparados.
Antes de partirmos, recebemos dezenas de nomes e endereços.
Meses depois, enviamos as fotografias.
Custou caro.
Mas foi, talvez, o preço justo.
Cruzamos os Bálcãs entre perfumes e tensões, entre hospitalidade e desconfiança, entre encontros improváveis e silêncios densos.
Aprendemos que viajar não é apenas chegar.
É observar. Escutar. Adaptar-se.
E aceitar o imprevisível.
Porque, nos Bálcãs, cada estrada conta uma história —
e cada história transforma quem a percorre
Por Palmarí H. de Lucena