Crime na Catedral e o eco do martírio de Romero

Crime na Catedral e o eco do martírio de Romero

Poucos símbolos me marcaram tanto quanto a imagem de um altar profanado. Desde cedo compreendi que o espaço sagrado, destinado à comunhão com o divino, podia ser tomado pela violência do poder temporal. Essa percepção começou ainda na juventude, quando assisti, no início dos anos 1960, à encenação da peça Crime na Catedral, de T. S. Eliot, na Igreja de São Francisco, em João Pessoa. Entre os arcos barrocos e as pedras antigas, a representação da morte de Thomas Becket, arcebispo de Cantuária assassinado em 1170, tornou-se para mim mais do que um episódio medieval: foi uma advertência viva de que a palavra da consciência pode ser calada pela espada, mas nunca se extingue.

Anos depois, já nos anos 1980, vivi na América Central, trabalhando em programas de ajuda humanitária da Igreja Católica. Ali, deparo-me com outro altar profanado: o do arcebispo Óscar Romero, de El Salvador. Recordo o impacto de ouvir o relato de sua morte — em plena missa, na capela do Hospital da Divina Providência, no dia 24 de março de 1980. Sua voz denunciava a violência da ditadura salvadorenha, as torturas, as injustiças. No instante em que elevava o cálice, o disparo certeiro atravessou-lhe o coração. O vinho e o sangue se confundiram no altar. Como Becket, Romero tombava diante de seus fiéis, transformando a liturgia em testemunho de denúncia.

Mas o horror não terminou ali. Em 16 de novembro de 1989, vivi de perto a dor da violência que voltava a manchar a terra salvadorenha. Seis jesuítas da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas foram executados: Ignacio Ellacuría, Ignacio Martín-Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno e Joaquín López y López. Com eles, tombaram também Elba Ramos, a governanta, e sua filha de quinze anos, Celina.

Entre os mortos estava um homem com quem tive a honra de trabalhar diretamente: o padre Segundo Montes. Era meu contraparte em projetos da Igreja na região. Lembro-me dele não apenas como o sociólogo espanhol respeitado, mas como o amigo de debates serenos, de lucidez intelectual e coragem inabalável. Sua capacidade de traduzir a fé em compromisso social deixou marcas profundas em mim. Sua morte não foi apenas uma perda coletiva, mas uma dor pessoal — a ausência irreparável de alguém que caminhou ao meu lado.

Essas experiências me mostraram que, embora separados por séculos e contextos distintos, Becket, Romero e os jesuítas da UCA convergem no mesmo dilema: até onde pode o poder temporal invadir o espaço do sagrado? Até onde pode o Estado exigir submissão, quando a consciência clama por justiça?

Na morte, eles alcançaram uma vitória paradoxal. Becket tornou-se santo em apenas três anos, venerado em toda a cristandade. Romero esperou até 2018 para a canonização, mas já era santo no coração do seu povo desde o instante do disparo. Os jesuítas tiveram seu testemunho reconhecido como martírio em 2015, e continuam vivos na memória da América Latina não apenas pelo sangue derramado, mas pelo legado de pensamento e de solidariedade.

Por isso, sempre que recordo a peça de Eliot encenada em João Pessoa, o altar manchado de sangue em San Salvador e a universidade transformada em campo de execução, vejo capítulos de uma mesma liturgia interrompida. Sei, pela minha própria experiência, que o altar pode ser violado, mas dele brota sempre uma memória que resiste. Becket, Romero e aqueles companheiros jesuítas me ensinaram — e continuam a ensinar — que a espada cala o corpo, mas não silencia a consciência, e que a palavra dos mártires permanece onde a história tenta esquecê-los.

Por Palmarí H. de Lucena