Crescente ameaça de cristais de metanfetamina

Crescente ameaça de cristais de metanfetamina

No seriado “Breaking Bad”, o protagonista é Walter White, um pacato professor de química que se envolve na produção de metanfetamina. O enredo explora os perigos e as consequências desse negócio ilegal, mergulhando na complexidade moral e ética da transformação de um professor em um fabricante e traficante de drogas altamente desejadas por viciados e traficantes devido à sua excepcional pureza.

A produção de metanfetaminas a partir da efedrina foi redescoberta pelo mundo do crime nos Estados Unidos nos anos 1980. A substância era um ingrediente ativo do descongestionante de venda livre Sudafed, o que facilitou um grande aumento na oferta ilegal do estimulante. Cientistas japoneses foram os primeiros a alterar a molécula da efedrina para sintetizar a metanfetamina cristalina em 1919, fabricada comercialmente como “hiropon”, combinando os termos “fadiga” e “voar para longe”, e distribuída para soldados com o objetivo de aumentar a vigilância durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 2006, os americanos identificaram uma amostra de metanfetaminas que não era produzida a partir da efedrina. Concluíram então que a mudança ocorreu porque a efedrina estava escassa devido à repressão em sua produção, apesar da existência de um método alternativo utilizado por gangues de motociclistas que dominavam o comércio da droga nos anos 1980. Constataram que a substância essencial para a fabricação sem efedrina era um líquido transparente chamado fenil-2-propanona (P2P), produzido através de várias combinações de produtos químicos também utilizados em uma ampla variedade de indústrias, como combustível para corridas, bronzeamento, mineração de ouro, perfumes e fotografia.

Durante o exame da amostra de 2006, os americanos também chegaram a conclusões preocupantes. Cristais produzidos em laboratório não estavam sujeitos ao clima, solo ou estação, somente à disponibilidade química. O novo método e acesso total a substâncias químicas pelos portos mexicanos permitiriam aos traficantes aumentar a produção de metanfetaminas P2P em quantidades ilimitadas, tornando-se impossível prever a extensão da epidemia de metanfetaminas que ocorreria 15 anos depois, nem como ela contribuiria para os flagelos relacionados, que agora são bastante evidentes na América, como epidemias de doenças mentais e falta de moradia, que só pioram a cada ano.

As metanfetaminas em forma de cristal são usadas como estimulante sexual na prática conhecida como “chemsex”, assim como em remédios para emagrecer ou para o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Essas substâncias são semelhantes em suas estruturas moleculares e efeitos e são administradas em doses controladas, com menor potencial de dependência. No entanto, na forma de cristal, elas são mais potentes e possuem menos informações sobre sua pureza e qualidade, além de serem ilegais.

O governo brasileiro precisa tomar medidas de segurança para reprimir a fabricação ilegal de metanfetamina cristalizada, promover campanhas de prevenção, educação e tratamento para usuários, especialmente para pessoas vulneráveis a problemas de saúde como HIV, DST, transtornos comportamentais, dependência de opioides ou vivendo em situação de rua. A droga é, de certa forma, uma metáfora para os tempos atuais, tempos de anomia, isolamento, paranoia e delírio, de comunidades se desintegrando. Embora ela não seja responsável por esses problemas sociais muito mais amplos, é claro que a epidemia de metanfetaminas é sintomática deles e contribui para eles.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

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