Colmar no outono: entre fronteiras e memórias

Colmar no outono: entre fronteiras e memórias

Colmar é uma dessas cidades que parecem ter sido desenhadas antes de serem construídas. As casas de madeira colorida, os telhados inclinados, os canais estreitos e as fachadas restauradas produzem uma paisagem que, à primeira vista, parece excessivamente perfeita. Há algo de cenário na cidade, como se cada esquina soubesse que será fotografada.

É preciso permanecer um pouco mais para perceber que a aparência é apenas a superfície. Por baixo das fachadas existe uma história menos decorativa. Colmar passou por mudanças de soberania, guerras, disputas religiosas e transformações culturais que fizeram da Alsácia uma das regiões mais complexas da Europa. No outono, isso parece mais visível: as flores diminuem, os dias encurtam, as folhas ocupam as calçadas e a luz se torna mais baixa. A cidade adquire uma tonalidade de lembrança.

Colmar foi mencionada em documentos do século IX e tornou-se, na Idade Média, uma cidade imperial. Em 1354, integrou a Décapole, a liga de dez cidades imperiais da Alsácia. Depois vieram a incorporação à França, a passagem ao Império Alemão, o retorno à França e a ocupação alemã durante a Segunda Guerra. Em 1945, a chamada Bolsa de Colmar foi encerrada. É uma história longa para uma cidade que hoje pode ser atravessada em poucas horas.

Talvez as fronteiras tenham justamente essa característica: parecem enormes nos mapas e pequenas quando desaparecem diante dos olhos. Em Colmar, a proximidade da Alemanha e da Suíça ajuda a explicar a mistura de influências na arquitetura, na gastronomia, na língua e nos costumes. A cidade é francesa, mas sua história não cabe inteiramente dentro da França.

As casas enxaimel são uma das manifestações mais evidentes desse passado. A Maison Pfister, construída em 1537, tornou-se uma das imagens emblemáticas da cidade.

Nada disso foi construído para agradar ao visitante contemporâneo. O turismo costuma transformar lugares de trabalho em paisagens, edifícios em monumentos e antigos caminhos em atrações. A chamada Petite Venise é um bom exemplo. Os canais da Lauch parecem existir para passeios de barco e fotografias, mas durante muito tempo estiveram ligados às atividades econômicas da cidade, inclusive ao trabalho de pescadores e comerciantes. O que hoje parece pitoresco já foi simplesmente necessário.

Talvez seja essa transformação que torne uma cidade histórica interessante. O passado não permanece intacto. Ele muda de função. Uma antiga residência torna-se monumento; um canal torna-se atração; uma praça de comércio passa a ser ponto de encontro. O lugar continua vivo justamente porque deixou de ser aquilo que era.

Colmar possui uma tradição artística que não combina inteiramente com sua aparência de cartão-postal. No Museu Unterlinden, o Retábulo de Isenheim, de Matthias Grünewald e Nicolas de Haguenau, está distante da imagem leve e colorida que costuma definir Colmar. Seu universo é de sofrimento, fé, doença e transcendência.

A literatura oferece outra chave. Théophile Conrad Pfeffel nasceu em Colmar no século XVIII e escreveu em francês e alemão. Sua trajetória representa bem a condição cultural da Alsácia, onde as fronteiras linguísticas nunca corresponderam perfeitamente às fronteiras políticas. Voltaire também passou por Colmar, interessado em documentos históricos. Encontrou material para sua pesquisa, mas também uma cidade que lhe pareceu provinciana.

Toda cidade turística possui uma versão oficial de si mesma. Existe a cidade que se oferece ao visitante e existe aquela que pertence aos moradores. Uma é feita de monumentos, restaurantes, mapas e fotografias. A outra inclui trabalho, comércio, vizinhos, dias de chuva e lugares que não aparecem em nenhum roteiro.

No outono, talvez seja mais fácil encontrar essa segunda Colmar. Com menos visitantes, o centro histórico perde um pouco da teatralidade. Os restaurantes continuam funcionando, as pessoas seguem para o trabalho e os moradores atravessam as mesmas ruas sem precisar olhar para as fachadas. Uma cidade turística torna-se mais interessante quando deixa de representar a si mesma.

Fora do centro, a paisagem muda rapidamente. A Alsácia é também uma terra de vinhedos. A Rota dos Vinhos atravessa vilas, encostas, igrejas, ruínas e propriedades produtoras.

No outono, as vinhas começam a abandonar o verde. Surgem amarelos, vermelhos, marrons e tons que parecem pertencer mais à terra do que às folhas. A paisagem adquire uma aparência de coisa provisória. Em poucas semanas, aquilo que parece permanente terá desaparecido.

É difícil não relacionar essa transformação à própria história da região. Os vinhedos mudam todos os anos. As fronteiras também mudaram. Os impérios desapareceram. As línguas permaneceram, misturaram-se e se transformaram. A cidade conservou algumas casas, perdeu outras, restaurou muitas. A memória fez o que pôde com aquilo que sobreviveu.

Ao final da tarde, Colmar muda novamente. A luz desaparece primeiro das ruas estreitas. Depois as fachadas perdem lentamente suas cores. O canal fica escuro. As folhas se acumulam junto às portas. O movimento diminui e os sons ficam mais perceptíveis: uma conversa dentro de um café, talheres sobre uma mesa, passos sobre a pedra, uma porta fechando.

Nesse momento, a cidade deixa de parecer um cenário. Talvez seja justamente aí que comece a viagem.

Viajar não deveria significar confirmar aquilo que já se viu em fotografias. Uma fotografia mostra a aparência de um lugar. Uma permanência mais longa revela suas contradições.

Colmar é francesa e carrega uma história alemã. É medieval e vive do turismo contemporâneo. É uma cidade de canais, mas também de comércio. É conhecida pelas casas coloridas, mas guarda dentro de seus museus imagens de sofrimento e religiosidade. É associada ao vinho e à paisagem, mas também à guerra, às mudanças políticas e às disputas de identidade.

Nenhuma dessas versões cancela as outras. Talvez a cidade seja interessante justamente porque não conseguiu escolher uma única identidade.

No outono, isso se torna mais evidente. As folhas caem, as vinhas mudam de cor, os turistas diminuem e as fachadas permanecem. A cidade parece menos preocupada em agradar e mais disposta a lembrar.

E talvez seja essa a melhor maneira de atravessar Colmar: não procurando a cidade perfeita das fotografias, mas aquela que aparece quando as fotografias já não são suficientes. Uma cidade onde as fronteiras mudaram, as línguas se encontraram, os impérios passaram e as casas permaneceram. Uma cidade onde o outono, por algumas semanas, parece colocar a memória à vista.

Palmarí H. de Lucena