Cilaio, Ciraulo e a Festa que ainda caminha em nós

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Cilaio, Ciraulo e a Festa que ainda caminha em nós

Quem nasce em João Pessoa aprende cedo a ouvir histórias antes de aprendê-las em livro. As histórias vêm sentadas na calçada, chegam pelo vento de agosto, se escondem atrás das barracas da Festa das Neves. Não se anunciam. A gente é que precisa ter ouvido.

Por isso eu digo: conheci Cilaio e Ciraulo antes de saber o nome deles.

Cilaio era daqueles homens que não chegam — aparecem. Tinha a alma trombeteando. Onde pisava, o chão virava conversa. Onde abria a boca, a cidade se desenrolava em riso.

E não pense que era riso vazio, não.
Era riso que ensinava.

Foi quando Cilaio trouxe seus bonecos que a festa ganhou língua própria.

As marionetes eram simples, feitas de pano e madeira, mas falavam como gente grande. O político virava nariz torto, o comerciante ganhava voz fina, o devoto distraído tropeçava no próprio terço. O povo ria, porque se via. E quando a gente se vê, aprende.

Cilaio puxava as linhas, mas quem falava era a cidade.

Os bonecos diziam o que o povo cochichava:
que a luz falhava,
que as promessas dormiam,
que os poderosos suavam pouco,
que o pobre carregava muito.

Mas tudo saía em forma de graça, porque na festa a verdade precisa usar fantasia pra passar sem ferir.

E quando o riso subia demais, quando a brincadeira ameaçava virar desordem, aí entrava Ciraulo.

Ciraulo não gostava de aparecer. Gostava de garantir.

Era homem de pisada mansa e olho atento. Não tinha voz alta, mas tinha decisão silenciosa. Onde havia tumulto ensaiado, ele desfazia em conversa. Onde a alegria ameaçava virar faca, ele encostava o tempo na parede.

Ciraulo era aquele que ninguém vê — mas todo mundo sente falta quando não está.

Um fazia rir.
O outro fazia durar.

E assim a Festa das Neves se sustentava — entre o riso e o juízo.

Houve um tempo em que inventaram até jogo de futebol de mentira. Diziam que a Paraíba perdera de quinze a zero pra Pernambuco. Nunca houve tal jogo. Houve foi carnaval. E no carnaval, o exagero veste fantasia de verdade.

Criaram até goleiro que nunca existiu. Chamaram de Page. Tomava gol de tudo quanto era jeito. O povo ria, porque não era derrota — era teatro.

Ciraulo não escrevia essas histórias.
Mas cuidava para que elas não terminassem em briga.

Cilaio armava o palco.
Ciraulo segurava a ponte.

Houve também guerra, daquelas que vêm de longe e apertam por dentro. Dizem que quando o sobrenome virou suspeita e a origem virou culpa, Ciraulo abriu suas terras para gente de sangue italiano. Não pediu documento. Pediu silêncio. E protegeu.

Não há papel.
Há memória.

E às vezes a memória vale mais.

Com o passar do tempo, Cilaio calou seus bonecos. Ciraulo sossegou seus passos. A festa cresceu, botaram palco grande, botaram luz que não apaga. Mas alguma coisa ficou diferente.

Ficou maior, sim.
Mas ficou mais distante.

Porque festa que cresce demais às vezes esquece os seus personagens.

Hoje, quando vou à Festa das Neves, não procuro mais programação.
Procuro vestígio.

Procuro o canto onde um boneco falou.
A sombra onde alguém apartou uma briga.
O riso que não vinha de alto-falante.

E ali, no meio da multidão, ainda escuto:

Cilaio dizendo verdades em forma de piada.
Ciraulo recolhendo excessos como quem recolhe criança da chuva.

E entendo, enfim, que cidade não é construção.

É gente.

E gente como Cilaio e Ciraulo não morre.
Apenas muda de esquina.

Por Palmarí H. de Lucena