Há quem diga que devemos chorar pela Argentina. Não por suas derrotas no futebol nem por suas recorrentes crises econômicas, mas pelo momento de tensões, divisões e perda de referências que muitos percebem em sua vida pública. A pergunta, contudo, merece outra resposta. Antes de lamentar a Argentina, é preciso recordar a grandeza de sua história e da extraordinária contribuição que ofereceu à América Latina e ao mundo.
A Argentina ocupa um lugar singular na história do continente. É a pátria que nos legou a epopeia de Martín Fierro, de José Hernández, símbolo da identidade platina e da liberdade do homem do campo; a visão reformadora de Domingo Faustino Sarmiento, que fez da educação o principal instrumento da construção nacional; a voz inconfundível de Carlos Gardel, que eternizou o tango, e a genialidade de Astor Piazzolla, que o reinventou e o levou às grandes salas de concerto do mundo; a imaginação inesgotável de Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores do século XX; a poesia de Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni; além da contribuição de inúmeros artistas, cientistas, intelectuais e educadores que transformaram a Argentina em uma das maiores referências culturais da América Latina.
Também em nosso tempo, a Argentina continua oferecendo ao mundo figuras de extraordinária grandeza. A genialidade esportiva de Lionel Messi transcende recordes, títulos e prêmios individuais. Sua postura serena, sua dedicação ao esporte e seu reconhecido trabalho humanitário, por meio da Fundação Leo Messi e de sua atuação como embaixador da UNICEF, revelam um atleta comprometido não apenas com a excelência esportiva, mas também com a promoção da educação, da saúde, da inclusão social e da proteção das crianças mais vulneráveis. Em um mundo frequentemente marcado pelo individualismo, Messi tornou-se exemplo de humildade, solidariedade e respeito, demonstrando que a verdadeira grandeza se manifesta tanto no talento quanto na capacidade de servir ao próximo.
Justamente por reconhecer essa herança é que causa inquietação assistir a episódios que parecem contradizê-la. Manifestações de racismo, violência, intolerância e desrespeito, dentro e fora dos estádios, jamais podem ser tratadas como simples excessos da paixão esportiva. São atitudes que ofendem a dignidade humana, comprometem a imagem de qualquer sociedade e obscurecem um patrimônio cultural construído ao longo de gerações.
A rivalidade entre brasileiros e argentinos constitui uma das tradições mais fascinantes do futebol mundial. Quando permanece nos limites da competição esportiva, alimenta o espetáculo e fortalece uma saudável paixão compartilhada pelos dois povos. Entretanto, quando a provocação degenera em preconceito, hostilidade ou violência, deixa de ser rivalidade e converte-se em negação dos próprios valores que o esporte deveria promover: respeito, igualdade e fraternidade.
Essa reflexão alcança igualmente a esfera política. Nos últimos anos, declarações do presidente argentino dirigidas ao Brasil e a autoridades brasileiras foram marcadas por insultos e por um tom de confronto que pouco contribui para o fortalecimento da histórica amizade entre os dois países. Divergir faz parte da vida democrática; transformar a divergência em ofensa pessoal ou em desrespeito às instituições democráticas de uma nação vizinha apenas empobrece o debate público e enfraquece a cooperação entre povos que compartilham laços históricos, culturais e econômicos. Brasil e Argentina construíram, ao longo de décadas, uma parceria estratégica baseada no diálogo, na integração regional e no respeito recíproco — valores que devem prevalecer sobre as paixões ideológicas e as circunstâncias de cada governo.
Nenhuma palavra agressiva, nenhum gesto de intolerância e nenhuma vitória ou derrota serão capazes de apagar o legado construído por gerações de argentinos. A grandeza de uma nação não se mede apenas por suas conquistas esportivas ou por seus indicadores econômicos, mas pela capacidade de preservar sua memória, honrar seus mestres, fortalecer suas instituições e transmitir às novas gerações os valores da educação, da civilidade e da convivência democrática.
Cabe, sobretudo, ao próprio povo argentino exercer a autocrítica e decidir quais caminhos deseja seguir. Não como demonstração de fraqueza, mas como expressão de maturidade cívica. As sociedades que mais contribuíram para a história da humanidade foram justamente aquelas que souberam reconhecer seus erros, corrigir seus rumos e reafirmar os princípios que lhes deram identidade.
Nenhuma nação deve ser reduzida aos atos de uma parcela de seus cidadãos, tampouco confundida com seus governantes ou com os excessos de alguns torcedores. A Argentina é muito maior do que qualquer crise política, econômica ou moral. Sua identidade foi construída pela literatura, pela música, pela educação, pela ciência, pelo esporte e pelo trabalho de homens e mulheres que fizeram da cultura, da criatividade e da liberdade os fundamentos de sua projeção internacional.
Se há algo pelo qual vale a pena chorar, não é pela Argentina em si, mas pela possibilidade de que um país de tão extraordinária riqueza humana e cultural se afaste dos ideais que inspiraram José Hernández, Domingo Faustino Sarmiento, Carlos Gardel, Astor Piazzolla, Jorge Luis Borges, Leopoldo Lugones, Alfonsina Storni e que continuam encontrando expressão em figuras como Lionel Messi, cuja excelência esportiva caminha ao lado da solidariedade humana. O verdadeiro patriotismo não se manifesta pelo insulto, pela intolerância ou pela hostilidade contra nações irmãs, mas pela capacidade de honrar a própria história, fortalecer as instituições democráticas, cultivar o respeito nas relações internacionais e estender a mão aos mais vulneráveis. É essa Argentina — culta, criativa, solidária e democrática — que merece continuar a inspirar a América Latina e o mundo.
Palmarí H. de Lucena