Cervantes e o abuso das comparações políticas

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Cervantes e o abuso das comparações políticas

“Todas as comparações são odiosas” é uma frase que Miguel de Cervantes jamais escreveria nesses termos, mas que ajuda a nomear um cansaço contemporâneo: o desgaste provocado pelo uso indiscriminado da comparação como arma política. Não se trata de rejeitar o confronto de ideias — Cervantes jamais o faria —, mas de denunciar a comparação transformada em atalho partidário, usada para reduzir a complexidade do real a equivalências grosseiras e moralmente convenientes.

Em Dom Quixote, tudo é comparação — e tudo é, ao mesmo tempo, crítica da comparação malfeita. O cavaleiro da Mancha mede o mundo com categorias herdadas de outro tempo e, ao insistir nessas analogias forçadas, produz ruína, não esclarecimento. É uma metáfora poderosa para o debate político atual, em que adversários são rotulados como reencarnações automáticas de tiranias passadas, e alianças circunstanciais são tratadas como traições ontológicas.

No terreno político-partidário, a comparação torna-se particularmente odiosa quando passa a substituir o argumento. Dizer que um governo “é igual” a outro, que um partido “repete” experiências históricas radicalmente distintas, ou que todo gesto do adversário “lembra” um regime autoritário específico, costuma dispensar análise institucional, contexto histórico e proporção. A comparação vira slogan. Serve para mobilizar paixões, não para iluminar fatos.

Cervantes parece advertir, por antecipação, contra esse expediente. Em Dom Quixote, a tragédia não nasce do idealismo, mas da incapacidade de reconhecer que tempos mudam e realidades não se sobrepõem mecanicamente. Transportado para a política, esse erro gera debates empobrecidos, nos quais o passado é instrumentalizado como ameaça retórica permanente, e não como fonte de aprendizado crítico.

Há, nesse uso partidário da comparação, um paradoxo corrosivo: quanto mais se invoca a história para deslegitimar o outro, menos se aprende com ela. Fascismo, comunismo, ditadura, populismo — tudo vira metáfora inflacionada, esvaziada de rigor conceitual e responsabilidade intelectual. A comparação deixa de tensionar diferenças e passa a apagá-las, criando equivalências morais artificiais que interditam qualquer diálogo racional.

Mas Cervantes também não absolveria o polo oposto:o refúgio confortável na ideia de que “nada é comparável”, de que cada fenômeno político é único e incomensurável. Esse relativismo absoluto apenas protege erros recorrentes sob a capa da novidade. Sem comparação, não há ironia; sem ironia, não há crítica; sem crítica, resta a repetição solene das mesmas falhas institucionais e éticas.

O ensinamento cervantino está no meio do caminho — e é exigente. Comparar é necessário, mas comparar dá trabalho. Exige método, escala, consciência histórica e, sobretudo, disposição para aceitar que a analogia pode iluminar limites próprios, não apenas defeitos alheios. A comparação legítima não absolve nem condena automaticamente; ela expõe tensões, revela desajustes e obriga o leitor a pensar.

Num tempo em que a política se alimenta de analogias instantâneas — feitas para viralizar, não para compreender —, Cervantes permanece atual porque lembra que a comparação irresponsável não é apenas intelectualmente pobre: ela é politicamente perigosa. Inflama, simplifica e deforma. Não porque compara, mas porque recusa o esforço de compreender aquilo que compara.

Talvez essa seja a lição mais incômoda: comparar é inevitável na política democrática; comparar sem critério é uma forma de desonestidade intelectual. Cervantes não nos pede silêncio diante das analogias — pede vigilância. Porque o verdadeiro erro não está em ver moinhos como gigantes, mas em exigir que todos aceitem o gigante como evidência, sem jamais discutir o moinho.

Por Palmarí H. de Lucena