Entre Palmares e Canudos: o Brasil que ainda procura nascer

Entre Palmares e Canudos: o Brasil que ainda procura nascer

Do alto, o sertão parece dormir, mas sob a areia seca e as pedras fendidas pelo sol ainda pulsa um coração antigo: o dos primeiros habitantes do Brasil. Antes dos canhões e das bandeiras, chegaram as cruzes e os espelhos, o ferro e o fogo. Povos como os Tupinambás, Potiguaras e Cariris foram vencidos não apenas por armas, mas pelo silêncio imposto às suas culturas. Capistrano de Abreu advertiu que a formação do país resultou de uma lenta desintegração cultural, na qual o avanço da colonização significou o recuo das identidades nativas. A história, escrita à sombra do poder, exaltou os conquistadores e omitiu os conquistados.

A marcha dos bandeirantes, celebrada como epopeia, foi também instrumento de coerção, levando grilhões e pólvora às entranhas do território. No mesmo solo em que se derramou sangue, germinaram experiências de resistência, como o Quilombo dos Palmares, nas encostas da Serra da Barriga. Décio Freitas chamou Palmares de a primeira república do Brasil, onde negros, indígenas e mestiços criaram uma sociedade autônoma e solidária. A destruição do quilombo, em 1694, não apagou seu exemplo: apenas revelou a força de uma ideia que sobreviveu à espada e ao esquecimento.

Dois séculos depois, em Canudos, o país voltou a confrontar-se com o próprio povo. No sertão baiano, Antônio Conselheiro reuniu homens e mulheres pobres em torno de uma comunidade de fé e partilha. O Estado republicano, ainda inseguro de si, interpretou aquele movimento como ameaça à ordem. As expedições enviadas contra o arraial repetiram, com novas armas e velhos temores, o reflexo autoritário de uma estrutura social fundada na exclusão. Euclides da Cunha testemunhou o massacre e registrou em Os Sertões que “Canudos não se rendeu: expirou, combatendo”. Sua frase atravessa o tempo como advertência sobre o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real.

Lilia Schwarcz observa que, ao longo de sua história, o país modernizou instituições, mas preservou desigualdades e hierarquias herdadas do período colonial. A escravidão terminou juridicamente, mas deixou marcas profundas nas relações sociais e nas formas de exercício do poder. Nas grandes cidades, as favelas e periferias revelam essa permanência: populações vulneráveis, muitas vezes descendentes de quilombolas e sertanejos, continuam a viver sob o peso da desconfiança e da violência institucional.

As políticas de segurança pública, quando baseadas apenas na força, reproduzem o mesmo padrão histórico de combate ao “inimigo interno”, substituindo o canhão pelo helicóptero, a expedição militar pela operação policial. O resultado é a continuidade de uma lógica de guerra aplicada a territórios de pobreza. A cada incursão que transforma comunidades em zonas de conflito, repete-se, de forma simbólica, o cerco a Canudos. Em ambos os casos, o Estado enfrenta cidadãos brasileiros que, em sua maioria, apenas reivindicam dignidade e presença.

A esse quadro se soma um novo tipo de corrosão: o poder paralelo das drogas e da corrupção. O tráfico, sustentado por desigualdades profundas e pelo consumo crescente, infiltra-se nas brechas deixadas pela ausência estatal. A corrupção, por sua vez, distorce a aplicação da lei e fragiliza a confiança pública. Quando as instituições cedem à omissão, o crime ocupa o espaço do Estado e a política se confunde com o negócio. Assim, o ciclo histórico se renova — a violência justifica a repressão, e a repressão alimenta a violência.

O problema não está na necessidade de garantir a lei, mas na forma de concebê-la. Um país que ainda se reconhece pela distância entre o centro e a margem precisa de políticas que unam, não que punam. Ética pública não se mede por armas, mas pela capacidade de escutar. O Brasil que destruiu Palmares e Canudos ainda precisa aprender a ser um verdadeiro Estado de Direito — um Estado onde a força esteja a serviço da justiça, e não o contrário.

Essa aprendizagem, porém, não cabe apenas ao poder público. Cabe também aos cidadãos compreenderem que viver sob o Estado de Direito significa assumir responsabilidades: respeitar as leis, exigir delas coerência e igualdade, e reconhecer que direitos não existem sem deveres correspondentes. O Estado é o reflexo de sua sociedade; e nenhuma sociedade amadurece enquanto confundir autoridade com medo ou justiça com vingança.

A superação dessa herança exige mais do que reformas: requer consciência histórica e respeito ao valor da vida humana, independentemente de origem, cor ou território. Enquanto essa compreensão não amadurecer, o Brasil permanecerá em busca de si mesmo — entre o passado que não se concluiu e o futuro que ainda não nasceu.

No fim, talvez a tarefa mais urgente seja esta: reconciliar o país consigo mesmo. Aprender que autoridade não é dominação, que justiça não é castigo, e que o poder só é legítimo quando reconhece a humanidade de todos. Quando essa lição for enfim compreendida — nas leis, nas escolas e nas ruas —, talvez o Brasil desperte do longo sono da desigualdade e descubra, enfim, o significado real de ser uma nação.

Por Palmarí H. de Lucena