John Le Carré não exagerou em O Alfaiate do Panamá. Seu romance parecia uma reportagem disfarçada de ficção, costurada com linhas de intriga, humor e suor tropical. O Panamá da era Noriega era um palco onde espiões, generais e trapaceiros dançavam um merengue perigoso — às vezes literal.
O espião britânico Andy Osnard, banido de Madrid por dívidas e adultérios, chega ao Panamá com a missão de sondar o futuro do Canal. Encontra Henry Pendel, alfaiate inglês de reputação duvidosa e clientela poderosa. “Bem-vindo ao Panamá”, dizia Pendel, “Casablanca sem heróis.”
E quem duvidaria?
Enquanto Pendel costurava ternos para generais e diplomatas, o ditador Noriega ditava o ritmo das ruas. Era um homem de vaidades e paranoias peculiares. Certa vez, proibiu nas rádios o popular merengue “Cara de Piña” — “cara de abacaxi” — por suspeitar que a canção escondia uma zombaria pessoal, já que sua pele acidentada lembrava a textura da fruta. O compositor jurou inocência; o ditador não acreditou. E assim, o Panamá dançava sob censura, entre tanques e trompetes.
O Arcebispo Marcos McGrath, único herói sem farda, bradava contra o regime. Pedia a renúncia imediata do general e o cumprimento dos Tratados Torrijos-Carter, que devolveriam o Canal aos panamenhos. Enquanto ele pregava justiça, o povo enfrentava a fome e o embargo imposto por Washington. Sem dólares, sem pão, sem banco central — o país transformou-se em um mercado de trocas improvisadas e barricadas fumegantes.
Do aeroporto à cidade, o trajeto parecia um pesadelo coreografado: pneus em chamas, ônibus atravessados nas avenidas e os “pitufos” — as temidas tropas de choque de capacetes azuis — batendo cassetetes nos escudos com um ritmo quase musical. Gás lacrimogêneo, gritos e um jipe balançando entre barricadas como se fosse parte de um desfile carnavalesco da anarquia. Um policial saltou sobre o capô e gritou:
“¡Atrás, gringos solidarios, esto no es Disneylandia!”
Tínhamos a sensação de que o inferno tropical possuía senso de humor.
Viajamos ao Panamá em meio a esse colapso, enviados por uma organização humanitária da Igreja Católica dos Estados Unidos. Chegamos ao palácio episcopal exaustos, cobertos de fuligem e lágrimas (em parte pelo gás, em parte pelo susto). Faltavam alimentos, mas sobrava tensão. Os fornecedores se recusavam a vender sem pagamento em dólar vivo — uma espécie extinta no país. Depois de dias de tentativas frustradas, encontramos um comerciante “de alma generosa”. Vendia arroz e feijão com preço de ouro e riso de hiena. Exigiu oitenta e quatro mil dólares em espécie. Gargalhamos. Ele não.
“American Express Platino serve?”, perguntamos.
Serviu. Ligação rápida ao escritório, compra aprovada, milhas acumuladas.
Tempos depois, enquanto tomávamos café em Paris — cortesia das milhas do milagre —, soubemos da invasão americana e da rendição de Noriega. O ditador, astuto como uma raposa, pediu apenas que o prendessem vestido com seu uniforme militar. Os americanos, satisfeitos com a rendição pacífica, aceitaram sem perceber o truque: vestido de farda, ele passava a ser prisioneiro de guerra, com direito a receber pacotes de alimentos e correspondência pela Cruz Vermelha. Um golpe de mestre — o último costurado por um general que soube transformar até a derrota em manobra.
Depois da queda, o país renasceu lentamente das cinzas. Em 1999, o Panamá reassumiu o controle do Canal, símbolo de soberania e de um futuro finalmente costurado por suas próprias mãos. A água voltou a correr sob bandeira panamenha, e os novos alfaiates passaram a atender banqueiros e diplomatas — herdeiros elegantes de uma era menos violenta, mas igualmente estratégica. O país, antes refém de generais e de dólares estrangeiros, tornou-se um centro logístico global, ponto de encontro de navios, moedas e histórias.
Mas o fantasma da interferência externa nunca desapareceu por completo. De tempos em tempos, volta a soprar do norte — em discursos inflamados, promessas de “restaurar a ordem” ou bravatas geopolíticas. Donald Trump, em seus arroubos, já insinuou que o controle de rotas estratégicas como o Canal deveria “voltar às mãos certas”, reacendendo velhas desconfianças latino-americanas.
O Panamá, experiente, observa o mundo com a serenidade de quem já sobreviveu a generais, bloqueios e invasões — e talvez sorria, como Pendel, ao perceber que quem realmente controla o Canal não é quem o possui, mas quem entende o fluxo da história.
E se esse fluxo, outrora canalizado por impérios e ditadores, agora seguir rumo à Venezuela, o enredo parece repetir-se em outra escala: crises fabricadas, sanções disfarçadas de virtude, bloqueios travestidos de política moral. O mapa muda, mas o roteiro é o mesmo.
O Caribe continua sendo um espelho: de um lado, o poder que dita; do outro, o povo que resiste — costurando, como sempre, sua sobrevivência com as linhas tortas da história.
Por Palmarí H. de Lucena