Carta do músico e artista plástico Zé Crisólogo ao artesão Bento de Sumé

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Carta do músico e artista plástico Zé Crisólogo ao artesão Bento de Sumé

Meu caro Bento,

Escrevo-te enquanto observo o mundo do lado de fora, desfocado pelas gotas de chuva que escorrem lentas, como se o tempo também estivesse cansado. Fico aqui, parado, fotografando com os olhos esse cenário miúdo, quase sem espaço para devaneios — e, ainda assim, algo em mim insiste em sonhar.

Hoje me vieram lembranças antigas. Lembrei-me de quando, ainda moço, ouvi ao longe uma canção estrangeira, dessas que a gente não entende, mas sente. Só depois fui saber que diziam “I want to hold your hand”. Naquele tempo, não compreendi as palavras, mas reconheci o chamado. Era como se ali estivesse escondida uma estrada que me levaria para longe — não em distância, mas em sentimento.

Curioso, Bento, como essas sonoridades de fora acabavam sempre me trazendo de volta para dentro. Bastava um acorde mais suave, e eu já estava de novo no nosso chão, escutando o ABC do Sertão, de Luiz Gonzaga, que foi, no fim das contas, minha primeira cartilha.

Não pense que a vida facilitou para mim. Vivi espremido num quartinho quente, colado a uma padaria que nunca dormia. O calor do forno atravessava a parede como se fosse dono do lugar, e o barulho da madrugada virava companhia. Ali, até as roupas dos outros vinham secar, de tão abafado que era. Mas, veja só, foi naquele aperto que aprendi a valorizar os pequenos respiros — e todos eles vinham pela música.

Muitas vezes eu ficava encostado no muro de um clube, só para escutar o grupo Quatro Loucos tocando aquelas músicas dos Beatles. Aos poucos fui entendendo as letras, e parecia que cada canção contava um pedaço da minha vida — o cansaço, a solidão, o esforço de seguir em frente mesmo quando não havia ninguém por perto.

Trabalhei duro, Bento. Trabalhei como quem atravessa a noite sem saber se o dia vai nascer. Houve momentos em que me faltou até coragem de dizer que estava tudo bem. E, no entanto, a música sempre esteve ali, firme — ora como consolo, ora como promessa.

Com o tempo, essas canções foram abrindo passagem para outras memórias: os pastos, o gado sendo tocado por homens magros, o sol marcando a pele como ferro quente. Foi nesse encontro entre o som estrangeiro e o nosso sertão que encontrei meu caminho.

E é por isso que penso muito em você, Bento.

Imagino teu quintal em Sumé, a madeira espalhada como se fosse resto, entulho esquecido — mas nós sabemos que ali já mora a forma antes mesmo do corte. Vejo teu quarto ao fundo, chão batido salpicado de tinta, como um mapa de tentativas e acertos. E as aves que te cercam, imóveis apenas na aparência, prontas para o voo — não fosse a imburana que as ancora ao mundo.

Tu transformas o que é bruto em presença. A imburana da Caatinga, que muitos ignoram, nas tuas mãos ganha destino. Teu talhe é seco, direto, sem ornamento desnecessário — como a própria vida no sertão. E talvez por isso mesmo seja tão verdadeiro.

Sei da tua história, homem de Sumé, nascido nessa terra do Cariri que ensina antes de explicar. Aos poucos, teu nome foi atravessando cercas, estradas e cidades, e hoje já não pertence só a ti — pertence à arte popular desse país que começa, ainda que devagar, a reconhecer o que nasce do chão.

Tua obra, dividida entre bichos e santos, me parece uma conversa constante entre o visível e o invisível. Nos animais — onças, cavalos, bois, tatus, tejos — há a força da sobrevivência, o corpo da terra pulsando em madeira. Nos santos — Nossa Senhora, São Francisco, São José, Santo Antônio — há a tentativa de tocar o mistério, de dar forma à fé que sustenta o homem quando tudo o mais falha.

E acho bonito, Bento, esse teu orgulho quando uma igreja te encomenda uma peça. Porque ali não vai só madeira talhada — vai tua crença, tua história, tua assinatura silenciosa ficando no mundo.

Vejo em tua obra essa mesma dureza da vida que nos moldou, mas também uma resistência — como se cada escultura fosse um pedaço do sertão dizendo: “ainda estamos aqui”.

Eu, por minha parte, sigo tentando fazer o mesmo à minha maneira. Também me tornei criador — um escultor de memórias, de bichos e de gente. Talvez, sem perceber, estejamos trabalhando a mesma matéria: tu na madeira da imburana, eu naquilo que o tempo não levou.

Nos animais e na terra encontrei uma paz que nem sei explicar direito, mas que talvez aquele tal de John Lennon também tenha buscado do lado de lá.

Hoje entendo que essa paz também pode ser nossa — minha, tua, de quem insiste em permanecer.

Escrevo-te isso não como quem conclui, mas como quem continua.

Teu amigo,
Zé Crisólogo

Concebida por Palmarí H. de Lucena