Saudações de Roma, onde, mesmo passados mais de dois milênios, o vaivém das ambições políticas e das esperanças populares continua a ecoar nos mármores do Fórum. Falo-vos eu, Tibério Semprônio Graco, tribuno da plebe no distante 133 a.C., quando ousei confrontar o Senado para restaurar à multidão aquilo que dela havia sido usurpado: a terra, o pão e a dignidade.
Ouvi dizer que havéis assumido a presidência da Câmara com votos abundantes e um lema vigoroso: “Não há democracia com caos econômico.” Vejo nisso nobre prudência — pois o tesouro vazio, como bem sabem os arquivos da República, gera tumulto que nenhum orador consegue apaziguar. Contudo, permiti-me recordar-vos que finanças equilibradas são condição necessária, mas jamais suficiente, para preservar a república: se o povo não percebe justiça na partilha dos frutos comuns, logo declarará falência à própria esperança.
Quando propus o agrum publicum (nosso antigo solo estatal) aos camponeses desalojados, não o fiz para delapidar cofres, mas para impedir que Roma se erguêsse sobre a ruína moral dos excluídos. Vós, que reagistes ao aumento do IOF como a um improviso fiscal — chamando-o “gambiarra” — mostrais zelo contra remendos apressados. Contudo, lembrai-vos de que o zelo pelo equilíbrio deve caminhar com o zelo pela inclusão.
O Brasil contemporâneo, pelo que me contam vossas crônicas, enfrenta concentração fundiária tão vasta quanto aquelas latifúndios que combati. Há também novas “terras” a repartir: crédito, tecnologia, mobilidade social. Creio que vossa liderança pode — e deve — engendrar reformas que devolvam ao cidadão comum não só a confiança nos números, mas a posse simbólica do futuro.
Não ignoreis, porém, o poder da aristocracia econômica. Quando pedi limites de quinhentos jugera aos patrícios, eles brandiram tradutores da lei, atrasaram votações e, por fim, acharam lícito tirar-me a vida. Vós enfrentareis, em tempos modernos, semelhantes táticas: luxuosas lobby houses em vez de togas, mas o mesmo apetite voraz. Preparai-vos, pois, para resistir não apenas com decretos, mas com alianças sinceras junto à plebe, à imprensa livre e aos que se levantam contra privilégios indevidos.
Recomendo ainda a transparência radical: publicai dados de execução orçamentária como cartas sobre a mesa; permiti que cada eleitor veja onde o gravame pesa e onde alivia. Nada desarma as facções melhor que a luz do sol, e nada fortalece um presidente da Câmara tanto quanto a confiança de que se governa sem véus.
Encerro conclamando-vos a unir prudência fiscal e ousadia social. Roma aprendeu, a custo de sangue, que muros de mármore racham quando o povo treme de fome; mas estradas firmes, escolas acessíveis e tributação justa sustentam legiões e sonhos. Que vossos atos não sejam apenas barricada contra o caos econômico, mas ponte sobre o abismo da desigualdade.
Vale,
Tibério Semprônio Graco
Tribuno da Plebe da República Romana
Concebida por Palmarí H. de Lucena