Do Engenho do Tempo à Ribalta do Mundo
Pilar, terra onde o barro molda destinos,
15 de junho de um ano sem calendário
Minha querida Zezita,
É com emoção de conterrâneo e alma de escritor que lhe escrevo esta carta do lado de cá da eternidade, onde repousam as palavras e os homens que jamais se calam. Soube — e como soube! — da sua caminhada luminosa, da menina que nasceu nas margens do mesmo rio que me banhou os sonhos até se tornar mulher de palco, tela e consciência.
Partilhamos a origem: Pilar, esse torrão onde o tempo parece repousar nas alpendradas e nos canaviais. Você o levou consigo, bordado na pele, para além da infância e da juventude, fazendo dele presença viva em tudo o que representou — das mães nordestinas às mestras de sabedoria silenciosa.
Soube que sua primeira aparição no cinema foi no filme Menino de Engenho. Que honra, Zezita! Lá estava você, ainda que em silêncio de figurante, como testemunha e filha daquele universo que criei em palavras e que Walter Lima Júnior verteu em imagens. Foi um reencontro — mais do que simbólico — entre minha memória e seu corpo em cena. Como se Pilar, em pessoa, tivesse passado diante da câmera.
Mas o que mais me comove é o que veio depois: os palcos tomados por sua presença altiva; os filmes em que deu vida a mulheres que o Brasil inteiro reconheceu como suas. E até mesmo os aplausos colhidos além-mar, quando sua arte cruzou fronteiras e fez da Paraíba um nome falado em outras línguas. Você levou o engenho para Cannes, para Havana, para onde a sensibilidade humana fosse capaz de entender que a grandeza está na simplicidade bem dita.
E mesmo quando não me menciona, sei que me carrega. Porque ao falar das raízes da literatura nordestina, ao defender nossa cultura como quem defende a própria mãe, você está dizendo, com elegância e coragem, que o Nordeste não cabe nos estereótipos, mas cabe no mundo — quando interpretado com verdade.
Você, Zezita, é Pilar em carne viva. É minha conterrânea na terra e minha herdeira na missão: mostrar que a arte pode ser trincheira, engenho, oração e espelho.
Com respeito, carinho e sincero orgulho,
José Lins do Rego