Carta Apócrifa no Palco: O Hamlet de Solha e o Espelho Estilhaçado da Consciência

Carta Apócrifa no Palco: O Hamlet de Solha e o Espelho Estilhaçado da Consciência

Luz tênue. O palco escuro. Ao centro, um homem sem coroa, sem trono, sem pátria. Carrega nas mãos um manuscrito amassado e na voz, uma dúvida que atravessa séculos. Não é mais o príncipe de Elsinore — é Hamlet em carne filosófica e brasileira, renascido sob a pena afiada de J. W. Solha.

“Sou ruína que pensa”, diz ele, abrindo o monólogo com a serenidade dos que já perderam tudo, menos a lucidez. A tragédia, outrora palaciana, agora se desenrola entre calçadas rachadas, orçamentos mutilados e sonhos com CPF cancelado. O espectro que o ator encarna não vem exigir vingança, mas sentido. Não clama por sangue, mas por pensamento.

E o que se vê no palco não é apenas teatro. É uma carta viva — uma carta que se escreve a si mesma enquanto se lê, enquanto se performa. É Hamlet que, vindo “do além do tempo e do palco”, dirige-se ao seu criador terreno: Solha, dramaturgo e cúmplice da vertigem. Não para agradecer por uma nova peça, mas por uma nova existência — uma existência ferida, mas pensante.

A pergunta que o personagem lança, outrora imortalizada em pentâmetro iâmbico — To be or not to be — já não basta. “A verdadeira questão, aqui, é o que fazer com essa consciência ferida num mundo onde a lucidez é castigo.” O público assiste sem respirar. Porque já não se trata de uma dúvida nobre e universal, mas de uma agonia cotidiana e tropical.

Na encenação, não há cortinas. O palco é cru, como o país. O ator não interpreta: tropeça no real, sangra com as palavras. Ele fala de utopias desfeitas, de justiças travestidas de espetáculo, de uma política que apodrece sob luzes de LED. E Solha, esse autor invisível, aparece em cada verbo — como uma sombra que dita o tom sem precisar entrar em cena.

O texto é também espelho — mas um espelho estilhaçado. Nele, Hamlet se vê e nos vê. E lemos junto com ele, nas entrelinhas da cena, a sentença que nos condena e liberta: “És Hamlet. Sou Hamlet. Todos somos.”

Eis o mérito dessa montagem: ela não representa, reverbera. Não entretém, inquieta. A carta que Hamlet rasga no final — gesto lento, ritualístico — não é um adeus ao texto, mas um grito contra as ilusões. A cortina, quando desce, é de neblina. E o que permanece é o silêncio — denso, filosófico, necessário.

Solha não escreveu uma peça. Escreveu uma vertigem. E Hamlet, por sua vez, deixou de ser personagem para se tornar pensamento vivo, dúvida encarnada, verbo que arde em carne e papel.

Sim, o teatro ainda serve. Não para consolar, mas para lembrar que a arte é, às vezes, o último lugar onde a dúvida pode respirar.

Um Hamlet anônimo, perdido entre o palco e a calçada

Concebida por Palmarí H. de Lucena

J. W. Solha, ou José Wladimir Solha, é um artista multifacetado brasileiro: escritor, dramaturgo, poeta, ator, artista plástico e romancista, nascido em 1941, em Sorocaba, São Paulo, mas radicado há décadas na Paraíba, onde desenvolveu grande parte de sua obra.