Aos irmãos e irmãs que hoje carregam nas costas a nova medida da desigualdade,
Falamos nós, filhos da poeira dos mercados, lavradores de terra seca, mulheres de feira, homens de cangalha, que um dia nos levantamos contra o peso da injustiça. Quebramos quilos, sim — não por ignorância, mas por sabedoria de quem sentia o peso de um sistema que não era feito para nós.
Hoje, não mais vos medem com arrobas, mas com boletos, cadastros, senhas e algoritmos. A medida da exclusão agora se esconde em apps que entregam o almoço, mas não alimentam a dignidade. Nos oferecem fiado digital com juros impiedosos, fingem inclusão com promessas de crédito, e impõem metas que os deixam exaustos, sem terra, sem teto, sem trégua.
O peso que vos esmigalha agora se chama “produtividade”, “empreendedorismo” e “flexibilidade”. Mas não vos enganem: o nome é novo, mas a chibata é a mesma. Chamam-vos de “colaboradores autônomos”, mas sois carroceiros modernos, arrastando nas costas a riqueza que nunca vos pertence.
E onde estão vossas balanças? Estão nos aplicativos que calculam o quanto valem vossos passos, vossos segundos, vossa força — sempre menos do que valem os bônus dos que vos exploram. Chamam isso de progresso.
No nosso tempo, disseram que éramos loucos por quebrar balanças. Hoje, chamam-vos de ingratos por exigir pão e escola. Os que vos governam dizem que é preciso “cortar gastos” — mas nunca os deles, sempre os vossos.
Lembrai, irmãos e irmãs: ninguém é tão pequeno que não possa dizer não. Ninguém é tão pobre que não tenha direito de se indignar.
Quebramos os pesos porque queríamos justiça. Hoje, talvez não seja preciso quebrar nada — mas sim reconstruir. União. Voz. Consciência. Voto. Coragem.
Se vós ainda achais que o sistema vos mede com justiça, olhai ao redor. Os ricos vivem de juros. Os pobres vivem de prestações.
E quando vos disserem que “o futuro é digital”, perguntai: e a justiça, será também?
Com indignação e esperança,
Os Quebradores de Quilos
(Do tempo em que o povo, mesmo analfabeto, sabia ler a injustiça)
Concebida por Palmarí H. de Lucena