Filhos e filhas de um mundo apressado,
Nós, os anciãos do povo Dogon, sob a luz da estrela Sirius — aquela que nos guia desde os tempos em que a palavra ainda caminhava antes do gesto — enviamos esta carta, não em papel, mas em espírito. Somos os guardiões da “togu-na”, a casa da palavra. Um lugar de teto baixo, que obriga todos a se sentarem e a ouvirem-se com humildade, porque só assim floresce o entendimento. Aqui, ninguém grita. O teto não permite.
Vemos o mundo de vocês, agitado e ensurdecedor. Palavras lançadas como flechas; opiniões feitas de pólvora e vaidade. Veem no dissenso uma afronta, não uma oportunidade de sabedoria. O diálogo virou combate. E vossas casas da palavra — parlamentos, tribunas, redes — tornaram-se arenas de insultos, não de escuta.
Sabemos que não somos os únicos a olhar para o céu e buscar sentido. Vossas máquinas foram longe, chegaram aos confins do universo. Mas a escuta — essa que nós praticamos há milênios com os ouvidos do coração — se perdeu no ruído do ego e no brilho das telas.
Na cerimônia do Dama, honramos os mortos expulsando suavemente os seus espíritos, para que reencontrem os ancestrais. Vocês, porém, desonram os vivos, empurrando-os para longe da dignidade com palavras ásperas, intolerância e zombaria pública. Perdemos o espanto ao ver o outro. E sem espanto, não há respeito.
Não vos escrevemos para condenar, mas para lembrar: o espírito precisa de silêncio para crescer. O mundo precisa de lugares onde a palavra sente — não apenas onde grita. Onde o saber do mais velho encontra a inquietação do jovem. Onde um “não sei” vale mais que mil certezas afiadas.
Construam suas casas da palavra. Mesmo com teto baixo. Mesmo entre diferenças. Pois uma sociedade que não escuta, adoece de dentro.
E quando a noite cair, procurem Sirius. Não apenas como ponto de luz, mas como símbolo daquilo que orienta e une. Pois sob o céu de Sirius, todos somos aprendizes.
Com o respeito que nasce da escuta e da ancestralidade,
Os Anciãos da Togu-Na
Em nome do povo Dogon
Guardião das palavras antes do tempo
Concebida por Palmarí H. de Lucena