Meus filhos e netos,
Se algum dia o peito de vocês amanhecer apertado — não de dor, mas daquela saudade que aquece sem ferir — saibam: sou eu, marchando em silêncio ao lado de cada um, no compasso invisível do tempo.
Talvez o estopim dessa lembrança venha de um dobrado militar, desses que ecoam solenes nas sonoras casernas e nas retretas de alhures, onde o trombone se mistura ao vento e ao tempo. Se os olhos marejarem, não se assustem. É apenas a memória regando a flor do afeto. Porque fui — e sigo sendo — parte dessa cadência que ainda pulsa dentro de vocês.
Vesti com honra a farda verde-oliva. Mas minha maior lealdade foi ao som — ao sopro do trombone que nunca se curvou à vaidade. Fui músico da Banda do 15º Regimento de Infantaria, sim. Mas também fui pai, contador de histórias em forma de música, educador sem diploma, sonhador com senso de dever. Ensaiava dobrados sob o sol escaldante do quartel e os executava pelas ruas de João Pessoa, sob o olhar encantado de vocês, meus pequenos, que me seguiam como se a lira dourada fosse uma estrela guia.
Cada desfile era uma prece ritmada. Cada “bum” do surdo, um chamado à decência. Cada nota do trombone, uma promessa de beleza num mundo tantas vezes áspero. Era um idioma só nosso, íntimo e secreto, feito de compassos e silêncio.
Vieram tempos mais duros. As bandas, antes símbolos de civismo e arte, passaram a carregar o peso dos regimes. O dobrado virou senha de opressão. A música, instrumento de temor. Mas eu persisti, sonhando que ainda estava no recanto das tardes de domingo, nos ensaios da velha Filarmônica de São João do Sabugí, que ajudei a reconstruir com as próprias mãos — cimento e esperança — ao lado de Honório Maciel, em 1934. Meu trombone, que atravessara carnavais, guerras e quermesses, nunca se calou diante da injustiça.
Foi então que reencontrei meu lar na música do povo. Nas quadrilhas dançadas sob a poeira dos terreiros, nos compassos do xaxado, no sapateado do coco de roda, na ciranda de mãos dadas, no pau de fita entrelaçado de cores e fé. Ouvi o maracatu bater forte como coração de mãe. Respeitei o reisado, me encantei com o teatro ingênuo do nau Catarineta, e vi — nos olhos das crianças e nas vozes roucas de futuro — a esperança afinada de um país que canta mesmo quando tudo parece desafinar.
Toquei ao lado de sanfoneiros, zabumbeiros, mestres de pífano e anônimos clarinetistas dos cortejos do interior. Ali, sem partitura, nascia a verdadeira harmonia — a música que não se ensina, mas se vive.
Lembro-me de quando um grupo de meninos pediu licença para subir na mangueira do campo de escoteiros, atrás dos frutos maduros. Sorri e disse: “Podem subir, sim, meninos. Mas deixem as melhores para os passarinhos.” Porque até a colheita tem que saber de respeito. Essa foi a minha forma de ensinar — sem cartilha, mas com gesto e olhar. Mostrar que dividir é mais nobre do que possuir tudo, e que a beleza da vida está também no que deixamos florir para os outros.
Essas manifestações, feitas de barro, suor e devoção, tornaram-se meu abrigo após os desfiles. Porque o povo tem sua própria partitura — e ela não cabe nas pautas oficiais. A música que nos comove nasce do chão e sobe com o vento. Eu a ouvi em cada alvorada de São João, em cada canto de feira, em cada riso atravessado do povo simples.
Parti antes da chegada do novo século, mas sei que ainda me ouvem quando o vento carrega sons antigos ou quando um pelotão desfila sob o sol. A música resiste à morte. E se hoje, entre arquivos digitais e memórias em fita, vocês ainda reconhecem aqueles acordes da infância — é porque nunca deixei de tocar.
Guardei cada passo, cada marcha, cada silêncio antes do primeiro acorde. E, meus queridos filhos e netos, mesmo quando o mundo parecer esquecer os homens simples, lembrem-se: a dignidade de um músico nunca desafina.
Deixo a vocês a herança de uma vida inteira afinada com o que é justo, belo e bom.
Com meu eterno amor — e o som do trombone que ainda ecoa,
João Emídio Lucena
Tenente Músico, pai, itabaianense de nascimento, sabugiense de coração
Concebido por Palmarí H. de Lucena