Carta Apocrifa do romancista e critico Maurice Blanchot ao poeta e escritor Hildeberto Barbosa Filho

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Carta Apocrifa do romancista e critico Maurice Blanchot ao poeta e escritor Hildeberto Barbosa Filho

Num tempo suspenso — onde escrever já não antecede nem sucede

Prezado Hildeberto Barbosa Filho,

Não sei exatamente de onde lhe escrevo — e talvez isso já seja o mais justo. Toda escrita que se aproxima de si mesma perde o lugar de origem e já não pode reivindicar um ponto estável de partida. Há um espaço — não um lugar, mas uma região de afastamento — onde a literatura se mantém, e é daí, talvez, que estas palavras se esboçam. Escreve-se sempre depois — ou antes — mas nunca no tempo exato em que algo poderia coincidir consigo.

Chegam-me ecos de sua obra: uma fidelidade longa, insistente, mais de quarenta anos, dezenas de livros. Mas o que me retém não é essa extensão, e sim o que nela retorna sem jamais se cumprir. Escrever tanto não é acumular — é reabrir. Cada texto, ao surgir, não prolonga um caminho: reencontra um limite, como se toda obra estivesse condenada a recomeçar no ponto em que já não pode se sustentar.

O senhor escreve: “tentarei a poesia”.

Permaneço nessa frase.

“Tentar” — não como projeto, mas como exposição. Não se trata de alcançar a poesia, mas de permanecer nesse gesto que não se resolve. Talvez toda a sua obra se inscreva nessa tentativa incessante — não como percurso, mas como insistência. E é por isso que ela não pode ser adiada.

Arrisco nomear essa exigência: uma escrita improrrogável.

Não porque seja urgente no sentido comum, mas porque não encontra repouso. Ela não espera o momento adequado, pois sabe — obscuramente — que esse momento não existe. Cada palavra chega fora de tempo, e é nesse desencontro que a literatura se sustenta, como uma conversa que não se encerra, que não conclui, que apenas se prolonga na impossibilidade de seu próprio término.

Escrever, então, não é dizer a coisa.
É afastá-la.

Fazê-la imagem — mas imagem entendida como aquilo que retira a coisa de sua presença, expondo-a à sua própria ausência. O que se escreve já não coincide com o que se quis dizer. E essa não coincidência não é falha acidental: é a condição mesma da escrita. Toda palavra traz consigo o vazio que a funda e, ao mesmo tempo, a desfaz.

Leio, em seus poemas, a pedra.

Mas a pedra não é apenas memória, nem origem, nem signo de pertença. Ela é aquilo que resiste — aquilo que permanece fora de alcance mesmo quando nomeado. A “comarca das pedras” não se oferece como território recuperável; ela se impõe como limite. Não se recorda: interrompe.

Talvez por isso ela retorne.

Não como lembrança, mas como obstáculo.

Pergunto-me, então — e essa pergunta não busca resposta —: quem escreve?

Não o autor, certamente, se ainda o entendermos como princípio de autoridade, centro de intenção, voz que organiza e garante o sentido. Esse desaparece — não por morte declarada, mas por esvaziamento. A linguagem já não o sustenta como origem, e o discurso já não pode assumir a forma de um dizer que ordena e promete repouso.

E, no entanto, algo escreve.

Mas esse “algo” não é sujeito.
É antes uma neutralidade ativa — uma insistência sem nome — que atravessa a linguagem e nela se perde, fazendo da escrita não um ato de domínio, mas uma experiência de despossessão.

Se sua obra persiste, talvez não seja por fidelidade a um projeto, mas por fidelidade a essa exigência mais obscura: permanecer diante do que não se deixa dizer. Mais de quarenta anos de escrita não constituem uma soma — configuram uma repetição essencial. Cada livro reabre o mesmo espaço, cada texto retorna ao mesmo impasse, como se a literatura fosse sempre esse movimento que não progride, mas insiste.

E quando, por vezes, a imagem se forma — bela, precisa, como “a terra se vestia com a blusa do domingo” — não é porque o mundo tenha sido apreendido, mas porque, por um instante, ele se suspende. Não se revela — vacila.

Talvez seja nesse vacilo que sua escrita mais se aproxima dessa literatura que não pode ser prorrogada.

Pois o que não pode ser adiado não é aquilo que precisa ser dito,
mas aquilo que jamais poderá sê-lo plenamente.

Escreve-se, então, não para concluir,
mas porque já não é possível adiar o encontro com esse impossível — nesse espaço onde a obra se desfaz e a linguagem, longe de se fechar, permanece em aberto, como uma conversação infinita.

Receba esta carta como um gesto de interlocução — não para fixar sentidos, mas para mantê-los em movimento, na instabilidade que lhes é própria.

Seu, nesse espaço onde a escrita persiste sem garantia,

Maurice Blanchot

Concebida por Palmarí H. de Lucena