Aos que hoje se sentam em cadeiras esculpidas pelo voto,
Saudações do tempo em que a palavra pesava mais que o ouro.
Falo-vos do planalto de Þingvellir, onde nos reunimos, em 930 d.C., sem muros nem microfones, sob o firmamento da Islândia e o juízo dos nossos pares. Cada homem ali trazia sua voz como herança e seu silêncio como prova de humildade.
Hoje, do alto de meus mil anos de pó e eco, olho vossos parlamentos e vos escrevo com inquietação.
Vejo assembleias que não deliberam, apenas encenam. Vejo legisladores que fazem da vaidade uma ideologia e do cinismo, um método. As discussões são coreografadas, os votos vendidos em leilões disfarçados de coligações. A urgência do povo cede lugar ao cálculo de marketing. A verdade não mais tem assento entre vós — ela foi substituída por narrativas com cheiro de mentira requentada.
No meu tempo, não éramos santos — mas sabíamos que legislar era um fardo sagrado. Hoje, muitos entre vós legislam por ofício, não por dever. Os regimentos são manipulados como espadas para impedir o debate. A minoria, que deveria ser escutada, é silenciada. A maioria, que deveria servir, governa para si.
Sinto vergonha por vossos parlamentos que se tornaram moinhos de vento, girando em torno de si mesmos, alimentados por lobbies invisíveis, enquanto a terra grita, o ar sufoca e as crianças vão dormir sem pão nem futuro.
Na Islândia ancestral, não havia partidos — havia responsabilidades. Não havia verbas ocultas — havia reputações expostas. Um parlamentar que esquecesse a aldeia era lembrado com o desprezo de sua própria sombra.
E vós? Quantos entre vós lembram do nome da professora que os alfabetizou? Quantos ainda ouvem o povo sem o filtro das pesquisas e dos marqueteiros?
Os parlamentos do século XXI perderam sua bússola. Em vez de serem faróis, tornaram-se espelhos partidos — cada um vendo apenas a si mesmo. Enquanto o mundo clama por coragem, oferecem slogans. Enquanto o planeta desaba, votam aumentos. Enquanto as democracias pedem ponte, constroem trincheiras.
Mas ainda é tempo. Ainda há tempo. Se voltarem a ver no mandato uma missão, e não um privilégio. Se falarem menos para as câmeras, e mais para as consciências. Se ousarem discordar com respeito e legislar com compaixão. Ainda há tempo de reacender a chama que moveu os primeiros parlamentos: a crença de que o diálogo, mesmo imperfeito, é melhor do que a imposição.
Que vossos microfones sirvam mais para ouvir do que para berrar. Que vossas leis não sejam cascas vazias, mas frutos maduros da razão e da empatia.
Do passado que ainda pulsa entre os campos de lava e as geleiras da Islândia, vos fala um ancestral não para julgar, mas para lembrar:
a democracia morre não só pela força das armas, mas também pela lentidão dos justos e pelo silêncio dos medrosos.
Com firmeza e lamento,
Þorsteinn Þorgrímsson,
Presidente do Alþingi, sob os ventos e a vigilância das pedras.
Concebida por Palmarí H. de Lucena