Carta apócrifa do poeta Zé da Luz para o poeta e compositor Jessier Quirino

Imagem concebida por IA
Carta apócrifa do poeta Zé da Luz para o poeta e compositor Jessier Quirino

Meu cumpade Jessier Quirino,

Mando essas mal traçadas linhas como quem solta um verso na ventania do sertão, esperando que ele passe por riba das estradas empoeiradas, atravesse feira, praça e cidade e vá lhe encontrar por aí, declamando seus versos e alegrando o povo com as histórias boas do nosso Nordeste.

Sempre achei que poesia num mora só nos livros cheios de palavra difícil. Poesia mora é na boca do povo: na prosa do matuto, na conversa de compadre, no riso que sai fácil no meio da feira e nas histórias contadas debaixo da sombra de um juazeiro. Foi escutando essas coisas da vida que fui ajuntando palavras e fazendo meus versos do jeito que o povo fala.

Quando escrevi uns poemas como Ai! Se Sêsse! e As Flô de Puxinanã, num pensei em ser poeta de importância não. Eu só queria botar no papel a fala da nossa gente, aquele português matuto que muita gente diz que tá errado, mas que na verdade tá é cheio de graça, de ritmo e de verdade.

Também escrevi versos como Brasil Caboclo, tentando mostrar que existe um Brasil diferente daquele das capitais: um Brasil do caboclo, do sertanejo e do povo simples que luta todo santo dia pra viver e que mesmo assim num perde a alegria de contar história e de dar risada da vida.

Vejo que, de certo modo, seus poemas continuam contando essa mesma história. Quando o senhor fala do interior, dos personagens matutos e das situações do sertão, parece que aquele Brasil que tentei mostrar nos meus versos volta a falar outra vez, agora através da sua voz.

Vejo também, cumpade Jessier, que sua poesia segue esse mesmo caminho da fala do povo, essa poesia matuta que nasce do jeito simples de falar do sertanejo. O senhor pega as palavras que o povo usa no dia a dia — aquelas ditas com graça e sem cerimônia, como “coroné”, “dez miréis” ou “de coca” — e transforma tudo isso em verso bonito e engraçado. Assim como fizeram outros poetas e cantadores do nosso Nordeste, o senhor dá voz ao vaqueiro, ao feirante, ao retirante e a tanta gente simples que carrega sabedoria no viver. E quando declama seus versos diante do povo, com humor e emoção, parece que a própria alma do sertão ganha corpo e fala pela sua voz.

É como se aquela fala antiga do nosso povo — a mesma que eu procurei guardar nos meus versos — encontrasse novamente estrada e caminho na sua declamação. Porque a poesia do Nordeste nunca foi só coisa de papel; ela sempre viveu foi na voz do povo, nas conversas de calçada, nos causos contados nas feiras e nas noites de lua do interior.

Pelo que me contam, o senhor pega essa mesma fala da nossa gente e transforma em poesia que o povo entende e sente. Mistura verso com humor, conta histórias do sertão e faz o povo rir enquanto se reconhece nas palavras que o senhor diz. Assim, aquilo que um dia tentei guardar no papel ganha vida outra vez na força da sua declamação.

Vejo também que nossas poesias nascem da mesma fonte: a vida simples do sertão. Nos meus versos procurei registrar a fala matuta do povo. Nos seus, essa fala ganha corpo e voz diante das pessoas. Em ambos aparecem os personagens do interior, o compadre conversador, o homem trabalhador e as situações engraçadas do cotidiano.

Tem também o humor, que é marca forte da poesia nordestina. O sertanejo sofre com seca, com dificuldade e com luta diária, mas nunca perde o riso. Nos meus poemas eu gostava de brincar com as palavras e com as situações da vida. Nos seus, esse humor também aparece vivo, fazendo o povo rir e, ao mesmo tempo, reconhecer a verdade escondida nos versos.

No fundo, cumpade Jessier, nós dois acabamos fazendo um trabalho parecido: guardar a memória do Nordeste em forma de poesia. Porque quando o poeta fala do seu povo, ele num fala só do presente não — ele guarda histórias, costumes, modos de falar e sentimentos de toda uma gente.

Parece até que nosso trabalho se encontra no meio da estrada: um escreveu ouvindo o povo, o outro espalha pelo mundo a voz desse mesmo povo. Um plantou o verso, o outro faz ele correr caminho.

Continue assim, compadre Jessier, levando poesia por esse Brasil afora. Porque enquanto tiver poeta cantando a vida simples do sertão, o Nordeste nunca perde sua voz.

Receba daqui um abraço grande desse seu amigo da rima matuta,

Zé da Luz

Carta concebida por Palmarí H. de Lucena