Carta Apócrifa do Papa Francisco às Filhas e Filhos que se Afastaram da Igreja

Carta Apócrifa do Papa Francisco às Filhas e Filhos que se Afastaram da Igreja

Queridas filhas, queridos filhos,

Escrevo-vos com o coração exposto, como um pai que sente a ausência dos seus e se põe à porta, não com julgamentos, mas com os braços abertos. Tenho visto muitos partirem — uns por feridas causadas dentro da própria Igreja, outros por cansaço, por decepção, ou por sentirem que Deus silenciou. E cada passo vosso para longe ecoou dentro de mim como um apelo: “Por que nos perdemos um do outro?”

Sei que a Igreja falhou. Sei que muitas vezes nos esquecemos do Evangelho para seguir protocolos, que trocamos o serviço pela ostentação, o cuidado pelas regras frias. Houve pedras onde deveria haver mãos estendidas. Houve silêncio onde deveria haver escuta. Por tudo isso, peço perdão.

Mas venho, agora, não como um reformador nem como um teólogo. Venho como irmão, como filho da mesma dor e da mesma esperança. Peço-vos, humildemente: voltem.

Não à instituição apenas, nem aos templos de pedra. Voltem à comunhão. Voltem ao Cristo vivo que caminha com os aflitos, que lavou os pés dos amigos e perdoou até os que o traíram. Voltem à possibilidade de reencantar-se com uma fé que não exige perfeição, mas acolhe o imperfeito com ternura.

A fé não precisa ser sólida como mármore — basta que seja uma chama que resista ao vento. E se a vossa chama apagou-se, deixai-nos oferecer a nossa por um instante, até que reacenda. Se a vossa confiança está ferida, permiti que vos ouçamos sem pressa, sem sermões.

A Igreja não é um museu de justos. É, ou deveria ser, um hospital de campanha — onde as feridas são lavadas com cuidado e silêncio. Se ela deixou de ser isso, que sejamos nós, juntos, os que a reencontram em sua vocação mais profunda.

O Ressuscitado não apareceu aos chefes, mas aos que tremiam. Ele continua a fazer isso. E talvez esteja justamente aí, ao vosso lado, disfarçado de dúvida, de lágrima ou de desejo de recomeçar.

Voltem. Não por nós, mas convosco. Voltem com perguntas, com mágoas, com amor ou com revolta — mas venham. Não queremos salvar-vos, mas caminhar convosco. A redenção não é um destino, é um processo. E a porta, vos asseguro, nunca esteve trancada.

Com amor e esperança,

Franciscus
(apócrifa, mas sincera)

Concebida por Palmarí H. de Lucena