Carta apócrifa do Major Otílio Ciraulo ao carnavalesco compositor Mestre Fuba

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Carta apócrifa do Major Otílio Ciraulo ao carnavalesco compositor Mestre Fuba

Parahyba, em algum ponto entre o passado das marchinhas e o futuro das Muriçocas.

Prezado Mestre Fuba,

Escrevo-lhe destas margens invisíveis do tempo, onde as lembranças da cidade continuam correndo como as águas do velho rio Sanhauá. Daqui observo a Parahyba que conheci — e aquela que nasceu depois de mim — e confesso que me alegra saber que o espírito do carnaval ainda respira nas ruas de João Pessoa.

Nos meus tempos de folia, quando o bloco ETL e F atravessava as avenidas com suas marchinhas atrevidas, eu já desconfiava de uma verdade simples: a cidade precisa tanto dos seus brincantes quanto dos seus governantes. Enquanto uns escrevem decretos, outros escrevem a história nas calçadas.

Meu bloco, como bem sabe, era uma pequena tropa de sátira. Usávamos música, caricaturas e até um jornalzinho distribuído no tríduo momesco para lembrar à cidade que o humor também é uma forma de vigilância cívica. A velha Empresa de Tração, Luz e Força, que inspirou o nome do bloco, talvez nunca tenha gostado muito de nossas brincadeiras, mas o povo compreendia perfeitamente o recado.

Eu próprio, embora major de patente e homem respeitado nos corredores da política, sempre preferi a franqueza do riso popular às solenidades do poder. Talvez por isso meu nome tenha circulado tanto nas ruas quanto nas salas onde se decidiam os destinos da cidade. Houve tempo, inclusive, em que sonhei ver erguer-se no Sanhauá uma barragem capaz de transformar aquelas margens num grande viveiro de peixes e numa entrada mais digna para nossa cidade. O projeto chegou a ser autorizado pelo ministro José Américo em 1954, mas a história, como sabemos, nem sempre acompanha os sonhos dos homens.

Mas não lhe escrevo para falar de barragens ou de obras que o tempo deixou pelo caminho. Escrevo para lhe dizer que fico satisfeito ao saber que as Muriçocas do Miramar tomaram para si o antigo estandarte da irreverência.

Dizem-me que o senhor, Flávio Eduardo Fuba — músico, escritor, produtor cultural e comandante dessa alegre multidão — transformou o carnaval numa verdadeira celebração da cultura popular. Não apenas com música, mas também com livros, cordéis e histórias que atravessam os salões da cultura e as ruas da cidade.

Isso me agrada profundamente.

O carnaval sempre foi mais do que festa. Ele é uma assembleia sem tribuna, um parlamento de confete onde cada cidadão pode falar com a voz da alegria. Quando vejo — ou imagino — a multidão das Muriçocas descendo a avenida sob o clarão das luzes da cidade, sinto que aquela antiga pedagogia do riso continua viva.

E é bom que continue.

Porque as cidades envelhecem quando esquecem de rir de si mesmas.

Guarde, portanto, Mestre Fuba, esse espírito brincante que faz da cultura popular uma força capaz de atravessar gerações. Enquanto houver alguém puxando uma marchinha, escrevendo um cordel ou conduzindo um bloco pelas avenidas, João Pessoa continuará reconhecendo a si mesma no espelho da festa.

Se algum dia, no meio do cortejo das Muriçocas, sentir um leve sopro de ironia vindo do vento do Sanhauá ou das lembranças de Bayeux, não estranhe. Pode ser apenas este velho major, ainda com o chapéu torto e o sorriso malicioso, marchando invisível entre os foliões.

Receba o abraço cordial deste seu companheiro de batalhão — não das armas, mas da alegria.

Major Otílio Ciraulo

Concebida por Palmarí H. de Lucena

Esta carta é uma composição literária apócrifa, imaginando um diálogo entre Major Otílio Ciraulo (1905–1963) — criador do bloco satírico ETL e F no carnaval da antiga Parahyba do Norte — e Flávio Eduardo Fuba, músico, escritor e presidente do bloco Muriçocas do Miramar, uma das maiores prévias carnavalescas de João Pessoa